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Entrevista

5 questões para Sakamoto

Jornalista, cientista político e blogueiro lança seu novo livro, ‘O Que Aprendi Sendo Xingado na Internet’ (editora Leya)

Entrevista

5 questões para Sakamoto

jenniffer.hoche • 27 de junho de 2016 • 09h32

De onde surgiu a vontade de escrever esse livro?

Eu já tinha escrito outros livros, sobre trabalho escravo, um livro de contos… Só que esse livro eu sempre fui um pouco refratário a escrevê-lo porque, para mim, a melhor forma de se comunicar com as pessoas que estão na internet é estando também na rede. Hoje eu tenho um blog que tem uma boa visibilidade, então eu quero continuar usando isso. Todo esse conteúdo que está no livro é fruto de debates que foram feitos no blog ao longo dos últimos três anos. Só que chegou um momento que eu percebi que era necessário utilizar outra plataforma para que essa discussão pudesse ser um pouco mais aprofundada, afinal o blog também tem limitações por conta da atualização diária, muito conectado com os temas quentes do momento. Então eu quis fazer uma coisa que não estivesse tão presa à pressa do dia a dia, mas ao mesmo tempo utilizando essa plataforma para discutir a necessidade de se melhorar o debate público na rede com quem não tem tanta familiaridade com a internet. Claro que eu não consigo ter um olhar de fora sobre a rede, afinal estou completamente imerso nela 24 horas por dia, seria impossível um olhar totalmente de fora. É uma análise de quem está lá dentro, mas usando uma plataforma de fora.

 

Gregório Duvivier disse na orelha do seu livro que “se a internet é uma selva, esse livro é o seu guia de sobrevivência”.

Eu sempre trabalhei muito nesse sentido, em educação na rede, em reflexão sobre o que acontece na rede. Claro que a internet trouxe mais benefícios do que problemas, é impossível pensamos na nossa existência sem a rede hoje, só que ao mesmo tempo muitas pessoas que nunca tinham sido treinadas para o debate público estão com computadores e smartphones em mãos, tendo acesso a todo tipo de informação e podendo compartilhar todo tipo de conteúdo nas redes sociais. Ou seja, elas têm a estrutura para se comunicar, mas não necessariamente estão preparadas para isso. O livro vem com esse propósito de orientar o leitor em relação a algumas regras para garantir a própria integridade dele dentro da rede.

 

capaQuais as diferenças entre escrever um livro e para o seu blog?

O livro acabou aproveitando muitos conteúdos e reflexões que já estavam lá no blog, só que o livro demanda uma concatenação de ideias maior, uma reflexão maior. No blog você acaba dando tijolos para a construção de uma discussão, sobre qualquer tema que seja; no livro você precisa mostrar para o seu leitor como esses tijolos se unem formando paredes e casas. Você consegue travar um debate de maneira mais estrutural do que você faria no blog. O desafio na verdade foi fazer isso, trabalhar com esses tijolos, mas da maneira mais leve e engraçada possível, e é justamente isso que faz a diferença. Nesse livro eu não estou querendo criar um debate acadêmico, apesar de o livro ter nascido de um processo acadêmico; é, sim, uma tentativa de popularizar esse debate, para que qualquer pessoa possa compreender.

 

E qual foi o maior aprendizado que você tirou desses anos na internet?

Costumo dizer que a coisa mais importante nesse processo todo é aprender a ter paciência, porque o nosso tempo para absorver uma informação ou iniciar um debate é diferente do tempo das outras pessoas. É preciso ter paciência com o tempo do outro e também com os processos que se desenvolvem na rede. Seria muito fácil pra mim, que sou jornalista e professor acadêmico, me ausentar desses debates, dizer que quero estar fora deles. Só que isso, no fundo, seria dar as costas para a própria função do jornalismo e também da academia que é exatamente traduzir todos esses debates e envolver o restante da sociedade neles, nessa produção toda de conhecimento e conteúdo. Nós estamos construindo a narrativa da internet.

 

O que pode provocar o xingamento na internet?

A nossa sociedade não foi devidamente preparada para o debate público, que é algo muito mais profundo do que simplesmente um comentário na internet. O xingamento na rede muitas vezes tem a ver com o medo que as pessoas sentem daquilo que é diferente. Ao estarem na rede, que funciona de certa forma como bolhas sociais, permitindo que essas pessoas convivam apenas com quem pensa de maneira parecida a elas, é natural que quando elas se encontrem com a diferença elas sintam medo, entrem em pânico e vão pra cima com violência. Então é por isso que a principal lição é a paciência: se você é xingado na internet por alguma razão é porque o ofensor em questão ou está mal informado sobre o que você está falando ou essa é a reação dela às novas informações que você está trazendo, mas que ela ainda não consegue lidar.

 

Por Carolina Porne