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Entrevista

Céu sem limites

Cantora se reinventa em seu mais novo álbum, ‘Tropix’

Entrevista

Céu sem limites

jenniffer.hoche • 01 de abril de 2016 • 17h51

A cantora Céu lança o seu mais novo trabalho neste mês em uma ousada reinvenção de sua carreira. O novo disco Tropix dá sequência a seus outros três álbuns, o Céu (2005), Vagarosa (2009) e Caravana Sereia Bloom (2012). No ano passado, ela lançou o CD/DVD Céu Ao Vivo, primeiro registro ao vivo da carreira, depois de ter caído na estrada reproduzindo na integra Catch a Fire, disco de Bob Marley e The Wailers lançado em 1973. Conheça um pouco mais do trabalho e da vida da cantora Céu, que prova ao mundo que a criação e a arte não têm limites.

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(C) 2016 Luiz Garrido-04. JPEGComo aconteceu o processo de produção de seu novo disco?

Quando você passa muito tempo trabalhando em um disco, a vontade de começar um novo projeto vem naturalmente, acho que é assim pra qualquer artista que escreva ou que componha. Eu já estava compondo algumas músicas e tinha a vontade de produzir com essas pessoas que chamei para o novo trabalho, que são o Pupillo e o Hervé Salters. Nos dedicamos ao disco durante seis meses. Como o Hervé mora em Berlin, a gente fez duas sessões junto dos meninos, uma em julho do ano passado e outra em outubro… Mas, claro, iniciei antes. Existe um processo interno que é meu mesmo, que não tem a ver com ninguém de fora, que demora um pouco mais.

 

Quais foram as suas maiores descobertas durante o processo de criação do Tropix?

Puxa, foi muito interessante. Realizei o sonho de fazer um disco com a mesma equipe em todas as músicas. Isso era um sonho desde o meu primeiro disco. Produzir as músicas ‘valendo’ no estúdio com os mesmos músicos em todos os processos, sem mudar nada depois, sem levar pra casa, sem trocar arranjo, nem chamar outros músicos, inserir novos instrumentos. Fechei o conceito do disco pensando nele como se fosse um power trio, mas power trio normalmente é feito com guitarra, baixo e bateria. Aí eu troquei a guitarra do power trio por teclado. E esses três instrumentos ficaram muito sincronizados em todo o disco. Essa foi uma descoberta maravilhosa pra mim.

 

Primeiro vieram as letras e depois as melodias?

Não tem exatamente um jeito. Às vezes faço a música inteira e às vezes primeiro a melodia… Tem vezes que pego uma música antiga e misturo tudo. Tenho muitos caderninhos com anotações. Ideias que eu ia usar no Vagarosa ou no Caravana e não usei, por exemplo, resgatei pra esse disco. O que existe é sempre um conceito, uma ideia que é amarrada e que norteia e formata todo o meu disco. Existe um som que eu persigo, existe uma cara, uma estética, ideias e influências que estão acontecendo naquele momento. Estava com vontade de brincar com essa coisa do pixel, dos trópicos, a ideia foi um pixel tropical – até por isso o disco se chama Tropix – e tem um pouco da estética do preto e branco, mas com algumas referências coloridas. A estética também ajuda a definir a medida do som. Tinha certeza que queria usar teclado, synths… Assim fui amarrando o conceito todo.

O resultado é um disco com mais beats e sons eletrônicos, diferente de seus trabalhos anteriores. 

Estava com muita vontade de usar beat. Claro que eu sempre tenho uma coisa orgânica junto, sempre trago isso em mim. Tem beat, mas tem bateria e tamba – um instrumento antigo muito orgânico, que apresenta uma maneira diferente de tocar bateria, trazido pelo Pupillo – ou seja, a gente sempre mistura. Mas eu tinha certeza de que nesse disco eu queria flertar com os beats, fazer um som mais duro, mais máquina. Mas eu sou brasileira, meu disco nunca fica totalmente máquina, mas essa a brincadeira que eu queria fazer.
(C) 2016 Luiz Garrido-07. JPEGTrazer uma nova sonoridade a um público que já é bastante fiel ao seu trabalho lhe causa algum medo?

Sempre! Todas as vezes que fazemos um trabalho artístico sentimos medo. Gera uma ansiedade, gera tudo, um trabalho artístico é muito pessoal, a gente nunca sabe muito bem porque a gente está fazendo aquilo. Mas ainda bem que sinto medo. Eu acredito que o medo seja extremamente importante para a arte, ele é um irmão da arte.

 

E como foi contar com a experiência de Hervé, Pupillo e Lucas neste trabalho?

Cara, eles são maravilhosos! Eles foram brilhantes. Só tenho a agradecer por ter essa galera por perto. Eles entenderam completamente o lugar para onde eu estava querendo ir e tive que falar muito pouco. Hervé é muito talentoso, Pupillo é muito talentoso e Lucas é muito talentoso. Foi um time que parecia que estava junto há muitos anos, mas que havia acabado de iniciar uma sessão de gravação juntos. Esse medo, por exemplo, era um medo bem real. Eu pensei: ‘nossa, será que vai dar certo, que vai dar liga?’, mas o encontro foi maravilhoso, foi muito bonito de ver, de assistir. Tenho muito respeito por esse time. Tem o Pedro Sá também que chegou na última sessão e que também esteve gravando suas guitarras maravilhosamente bem. Foi tudo incrível.

 

Qual música é a cereja desse novo trabalho pra você?

Putz, essa pergunta é impossível de responder. Não dá pra escolher, cada música tem uma história pra mim. É a mesma coisa que escolher um filho, se eu tivesse vários (risos). É impossível.

 

E o clipe que lança o single desse novo trabalho?

O clipe é completamente analógico, feito apenas com jogos de luz. Mas tem o glitch (interferência de ruído na imagem), que traz uma estética old school em relação ao que tem sido feito hoje. O Esmir (Filho, diretor do videoclipe) foi muito inteligente na escolha dessa técnica, foi sagaz e sensível. Em pouco tempo e com pouco dinheiro, de maneira muito simples, ele teve a ideia. A gente já tinha feito um trabalho juntos no Caravana, quando ele me entregou uma câmera pra fazer algumas imagens, mas não tinha sido o suficiente. Ainda queria trabalhar mais com o Esmir, pois sou bastante fã do trabalho dele, por isso busquei ele pra esse projeto.

 

(C) 2016 Luiz Garrido-06. JPEGE o novo cabelo vem para registrar uma nova fase da Céu?

Eu tenho uma maneira lúdica de observar os trabalhos artísticos. Acho interessante mexer, brincar, mudar, essa é a parte divertida da música. Já levo muito a sério todas as coisas que faço, como o meu trabalho, que é o ar que respiro. A estética é importante para arejar, brincar… Então tem a ver, sim, mas também tem a ver porque eu estava a fim de fazer isso, de mudar o cabelo, cortar, sem apego.
Você é uma das mais bem sucedidas cantoras dessa nova geração. Como você vê a cena musical no Brasil atualmente?

Temos uma cena muito rica, cheia de gente legal, interessante, talentosa. Acho um privilégio estar nessa geração. A melhor música do mundo pra mim é a do Brasil. Pra mim é inspirador ver tanta coisa interessante acontecendo aqui.

 

Você escuta muita coisa contemporânea ao seu trabalho? O quê?

Escuto, mas não muita. Pra falar a verdade, com essas mudanças de tecnologia, onde a música tem se tornado cada vez mais um serviço disponível em várias plataformas, acabo escutando muito vinil e adquirindo muito vinil. Acabo, por isso, escutando mais músicas antigas, principalmente anos 90. Escuto uma ou outra coisa moderna. Como referência do que ouço contemporâneo a mim, posso dizer que gosto muito de Ava Rocha. Acho o trabalho dela interessante, me deixa complexa a forma cênica com que ela se traduz. Sou também muito fã do Lira (ex-Cordel de Fogo Encantado), do Jorge Du Peixe e de coisas gringas como a Tame Impala.

 

E quem são as suas maiores referências musicais?

Minhas maiores referências são da música brasileira, como Afrosambas. Toda a parte negra da música brasileira é muito importante pra mim, dos sambas antigos como Nelson Cavaquinho, Cartola e também novos, como Fundo de Quintal. Mas sempre fui fã de João Gilberto, de Chet Baker, de Ella Fitzgerald, Nina Simone. Também escutei muito soul, muito Kurtis Memphis. São esses os meus pilares na música.

 

Como foi ter uma música gravada por uma intérprete como Gal Costa?

Foi um absurdo de um sonho pra mim, uma alegria enorme, pois sou completamente louca pela Gal. Sou fã como artista, como cantora, como figura que é, personalidade…Foi um verdadeiro presente pra mim.
Outra experiência interessante foi gravar com um dos mestres do jazz, Herbie Hancock…

Essa experiência foi linda. Receber o convite dele foi um susto pra mim. Eles entraram em contato com o escritório e quando me passaram a notícia eu quase caí pra traz, essa foi a realidade (risos). Fiquei muito nervosa, mas quando conheci a figura fiquei completamente relaxada, pois ele é uma pessoa muito classe, muito sensível. Ele é daquelas pessoas que tem uma relação com a música muito real, muito verdadeira, sem pompa, sem ego, com o foco totalmente na música. Foi uma escola conhecer e trabalhar com ele.

 

Pode comentar alguma outra grande oportunidade que a música trouxe para a sua vida e carreira que fazem com que você tenha certeza do caminho que escolheu?

O que me mostra isso é que estou feliz, me sinto feliz. O lugar onde estou na música me faz feliz. O artista pode estar num lugar, mas estar frustrado com alguma coisa, querendo mais, ou menos, cada um tem o seu desejo. Consigo entender que estou realizada na música é aquele ao olhar para o lado e me sentir feliz ensaiando. Por exemplo, agora estou aqui em casa, esperando pra um ensaio. E eu gosto disso, gosto de viver disso. Tenho certeza de que estou no caminho certo. Trabalhar pra mim não tem o mesmo significado que tem pra maioria das pessoas. Eu me divirto muito com música. Dá um trabalho absurdo, muito trabalho, a gente fica morta, cansada, pois demanda muito, muito mesmo, mas é gratificante.

 

E como é a Céu na rotina, fora do trabalho musical?

Uma pessoa normal, completamente comum como todas as donas de casa do mundo. Sou mãe, cuido muito da casa, tenho uma rotina bastante agitada. Sou elétrica, faço trezentas coisas, vou ao supermercado, levo minha filha, que tem sete anos agora, à escola. Tudo o que qualquer pessoa faz. E isso tudo eu tenho que juntar à música que demanda muito também. Preciso me equilibrar nos horários e não vacilar nisso, essa é a minha vida.
Quando você lançou o seu primeiro disco no Brasil pela Warner, a Fnac já vendia seu trabalho aqui no país. Como isso aconteceu?

Iniciei meu trabalho lá na Europa em 2005 e na época ainda era independente. Fizemos o lançamento do primeiro disco com o apoio da Fnac França, o que foi muito importante pra mim, pois foi minha estreia com um show na Europa. Depois disso a Fnac começou a comercializar meus discos lá e aqui no Brasil, e aí as coisas foram acontecendo pra mim, veio o selo. Foi uma relação que começou na Europa e que se fortaleceu no Brasil. Sou muito grata

 

 

Por Jenniffer Hoche