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Entrevista

Elas serão populares

Sucesso mundial, o musical Wicked estreia neste mês em São Paulo; confira entrevistas com suas protagonistas

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Elas serão populares

jenniffer.hoche • 02 de março de 2016 • 08h59

Você já conhece a história de Dorothy, Totó e os amigos que fizeram durante sua aventura na Terra de Oz. Contudo, será que você sabe o que aconteceu antes disso? Essa é a trama de Wicked, musical que estreia neste mês no Teatro Renault, em São Paulo.

Você vai ser apresentado a Elphaba e Glinda, duas jovens amigas. Elphaba, nascida com a pele cor verde-esmeralda, é esperta, mas incompreendida. Glinda é belíssima, ambiciosa e bastante popular. Essa megaprodução, que faz rir e chorar, traz à tona os segredos que levam Elphaba a se tornar uma bruxa “má” e Glinda a ganhar a simpatia dos habitantes da Cidade das Esmeraldas.

Wicked foi assistido por mais de 48 milhões de pessoas no mundo todo e obteve faturamento superior a 3,9 bilhões de dólares. Agora o musical chega ao Brasil, com montagem original e letras em português. Prepare-se para se encantar!

 

12742756_821867921258713_6449063784205659400_nDesafiando a gravidade

Fabi Bang e Myra Ruiz, respectivamente Glinda e Elphaba, falam sobre a responsabilidade de trazer aos palcos brasileiros um musical de grande sucesso mundial

 

Vocês se identificam com Glinda e Elphaba em alguma característica? Qual?

Fabi Bang: Eu me identifico com a espontaneidade e benevolência (que beira a ingenuidade) da Glinda! Compartilhamos também o bom humor, otimismo e, claro, a paixão por roupas e sapatos! Além disso, Glinda nunca está “felizinha” ou ‘tristinha”. Ela externa as emoções intensamente: ou está extremamente feliz, ou extremamente triste. Também sou assim.

Myra Ruiz: A Elphaba vai às últimas consequências para defender o que é certo, defender os direitos de todos e o que ela acredita. Tenho um irmão autista e tenho esses mesmos sentimentos que a Elphaba em relação a ele. Acho que todos podem se identificar com a Elphaba e com a Glinda: elas são humanas, erram, sofrem, mas vivem uma amizade intensa que transforma a vida delas e de todos ao redor.

 

Ambas atuaram em musicais bem diferentes de Wicked antes de chegarem até aqui. Qual foi a lição mais importante que os anos de teatro musical ensinaram a vocês?

FB: A lição é: um musical não depende isoladamente de uma bela voz, ou um belo rosto, ou um corpo que se mexe perfeitamente, ou uma interpretação brilhante. É preciso cantar e interpretar e dançar e emocionar. Não existe “ou”. O ator-atriz de musical precisa ter domínio do corpo e das emoções, e isso não se adquire da noite para o dia. É fruto de muita disciplina, paixão e perseverança.

MR: A importância de manter os pés no chão. São muitos “nãos” em audições para cada “sim” e não dá para se deslumbrar.  Além disso, eu nunca digo que estou “pronta” como artista. Não passo uma semana sem estudar, sem buscar me aprimorar. Custa tempo e dinheiro, mas é fundamental estudar sempre canto, atuação e dança, cuidar da mente e do corpo, pois é o nosso instrumento de trabalho.

 

Wicked é uma grande produção e um musical aclamado mundialmente. Vocês sentem muita pressão em agora trazê-lo ao Brasil?

FB: Existe uma grande expectativa sim. As pessoas esperam que o nosso Wicked seja igualmente brilhante ao que acontece na Broadway há 13 anos. E nós estamos trabalhando pesado para surpreender essa expectativa e retribuir o público com um espetáculo impecável, fiel à história, porém, com a energia e emoção de um elenco brasileiro comprometido e apaixonado. Eu sei a dimensão e a responsabilidade que é estar à frente desse elenco, mas, ao mesmo tempo, existe uma equipe muito competente nos preparando e dando todo tipo de suporte para esse momento.

MR: Sim, tem muita pressão, do público, que sonha em ver esse musical no Brasil etc., mas a pressão maior vem de mim mesma, de saber que vou defender um dos papeis mais difíceis da Broadway, que fui escolhida para isso e tenho que dar tudo de mim. Mas faço o possível para não deixar isso me afetar e me concentro em dar o meu melhor para a minha Elphaba. O público tem se mostrado muito positivo, torcendo desde já, e esperando a estreia para realizar o sonho de assistir Wicked no Brasil. O musical tem fās no mundo inteiro e já estamos sentindo esse carinho.

 

Myra 1O que acharam das músicas adaptadas para o português? Conseguem eleger uma favorita?

FB: Fiquei extremamente feliz com as versões. O Victor Mühlethaler e a Mariana Elisabetsky conseguiram alternativas fidedignas ao texto original. Mantiveram o humor, a sensibilidade e intensidade de cada momento e canção. É uma tradução tão precisa que tenho a sensação de que nunca cantei essas músicas em outro idioma! A minha favorita é Popular! Hilária!

MR: Achei excelentes! Ouço o musical em inglês há anos, mas a versão do Vitor Muhlethaler e Mariana Elizabetsky não deixou absolutamente nada a desejar. As versões mantiverem toda a poesia e beleza do original e nos ajudam muito nas cenas. Fica fácil de cantar com versões boas.

 

Como estão os ensaios e preparativos para a estreia?

FB: Muito intensos! Nós trabalhamos aproximadamente 10 horas por dia (oito horas ensaiando, duas horas em casa decorando texto e relembrando marcas). A nossa diretora Lisa Leguillou é extremamente detalhista e faz questão de manter a verdadeira essência de cada personagem. Com isso às vezes passamos um dia inteiro trabalhando em uma cena de aproximadamente cinco minutos. Além disso, existem questões técnicas que tem que ser cumpridas para o bom funcionamento do espetáculo e também por segurança. Ou seja, é muita informação para assimilar, mas o resultado valerá muito a pena!

MR: É um período muito puxado. Temos muitas horas de ensaio e uma folga por semana (que também é usado para estudar). Eu vivo como um monge, do ensaio para casa. Só estudo e me cuido, tomo cuidado com a saúde, faço uma dieta especial para me manter forte e saudável. Mas acho esse período de ensaios maravilhoso; quando tudo começa a surgir, estamos encontrando os personagens e usando toda nossa criatividade!

 

Fabi bang 2Vocês tem algum tipo de ritual antes de entrarem no palco? Qual?

FB: Gosto de chegar ao teatro com bastante antecedência para me preparar com calma e aquecer corpo e voz. Realmente preciso que esse processo aconteça com tranquilidade. Além disso, sempre visito o camarim dos amigos, e me abasteço de afeto e boas risadas. Estar conectada com todo elenco é fundamental. Uma oração pedindo proteção, e, às vezes, repasso o texto de determinada cena.

MR: Descanso muito durante o dia. Chegando ao teatro, o processo de caracterização ajuda muito a entrar no personagem. Primeiro a maquiagem, depois peruca, figurinos, aquecimento vocal e corporal. Existe toda uma concentração para entrar pronto em cena, quando a cortina abrir. Antes de entrar, geralmente, fecho os olhos e respiro fundo, pois uma vez que o espetáculo começa, praticamente não saio de cena (risos)!

 

Que dica dariam para quem está começando no mundo do teatro e deseja fazer teatro musical?

FB: Descubra-se como artista. Não tente imitar ninguém. Não seja uma cópia do YouTube. Investigue o que há de mais intrínseco em você e quando descobrir, alguém também te descobrirá. Saiba que não será fácil, mas prepare-se: vai ser maravilhoso!

MR: Eu diria que devem entender que essa é uma profissão que exige muito estudo, antes de qualquer coisa. Canto e dança são fundamentais; atuação nem se fala. Costumo dizer que é uma profissão de resistência. É para quem tem estômago para lidar com rejeição em audições (e são muitas!) e não se importar em levar uma vida extremamente regrada. Eu vivo para o espetáculo que estou fazendo. Preciso me poupar para estar bem no palco, e isso é bem complicado às vezes. Abro mão de estar com a família, em festas de amigos… Tem que amar muito! Mas quando subo no palco, sei que não teria como estar em outro lugar.

 

Wicked é uma peça estrelada por duas mulheres. No mês da mulher, como veem o feminino representado no teatro, tanto na ficção quanto na realidade? Percebem que as mulheres tem conquistado mais espaço nos palcos?

FB: Independente do sexo, o ator tem que estar preparado para os desafios. No caso de Wicked, a trama é centralizada em duas personagens femininas. Duas mulheres fortes e diferentes, que descobrem através dessas diferenças um caminho para se tornarem pessoas melhores e grandes amigas fiéis. Além disso, o backstage e produção desse espetáculo é composto em sua maioria por mulheres. Levando em consideração o teatro Grego Antigo, onde as figuras femininas eram representadas por atores travestidos, em comparação com Wicked, acho que pelo menos nos palcos, nós alcançamos (na minha opinião ultrapassamos) uma igualdade nos valores femininos e masculinos.

MR: Posso falar especificamente dos musicais, que é onde me enquadro hoje. Há dezenas de personagens que carregam o empoderamento feminino. Elphaba, por exemplo, é uma personagem extremamente poderosa e libertária, e Defying Gravity poderia ser um hino feminista! Isso sem falar em tantas outras grandes personagens, que lançaram as grandes divas dos musicais, como Evita, Gypsy, Dreamgirls, Funny Girl…

 

Se pudessem descrever o musical em uma palavra, qual seria?

FB: Arrebatador.

MR: Ícone!

 

 

Entrevistas: Carolina Porne

Fotos: Divulgação/Marcos Mesquita