Localização

Bem-vindo ao Universo Fnac! Para que sua experiência seja a melhor possível, defina sua localização:

Entrevista

Entrevista: Paulo Coelho

Marcando o lançamento do seu mais novo livro, Manuscrito encontrado em Accra, o escritor Paulo Coelho fala com seus leitores, nesta entrevista preparada pela Editora Sextante: Paulo, você é craque em misturar realidade e ficção nos seus livros. O que é fato e o que é ficção no Manuscrito encontrado em Accra? Existem mil maneiras […]

Entrevista

Entrevista: Paulo Coelho

jenniffer.hoche • 29 de outubro de 2012 • 16h12

Marcando o lançamento do seu mais novo livro, Manuscrito encontrado em Accra, o escritor Paulo Coelho fala com seus leitores, nesta entrevista preparada pela Editora Sextante:

Paulo, você é craque em misturar realidade e ficção nos seus livros. O que é fato e o que é ficção no Manuscrito encontrado em Accra?

Existem mil maneiras de interpretar a realidade. Distinguir fato e ficção não é difícil apenas para o escritor, mas para qualquer pessoa. Vivemos sob um bombardeio de informações que acreditamos ser fatos, quando muitas vezes podem ser ficção. Manuscrito encontrado em Accra é baseado em valores, e valores nunca são ficção. Eles atravessam os tempos. O livro não pretende explicar ou descrever valores, mas sim ver como as perguntas que tínhamos há mil anos permanecem vivas, como elas seriam explicadas há mil anos e como são explicadas hoje.

A Indesejada das Gentes – a morte – está muito presente neste livro. Isso tem alguma relação com o susto que você levou por conta de um problema de saúde no ano passado?

Quando o médico me falou, em 30 de novembro de 2011, que eu ia morrer, que a Indesejada das Gentes ia chegar, não tive muito tempo para pensar. Ou eu operava na hora ou morria. Dois dias depois, me submeti a um cateterismo. Na noite anterior, deitei e pensei: “Puxa vida, se eu morrer, vou morrer feliz! A Indesejada das Gentes chegou e, como diz o poema do Manuel Bandeira, encontrou a casa limpa, a mesa posta, cada coisa em seu lugar. Vivi tudo o que tinha que viver. Sempre fui além dos meus limites. Tive uma juventude espetacular, porque coincidiu com a época hippie – totalmente diferente de hoje, onde as pessoas são muito mais prudentes. Fui absolutamente imprudente, o que considero uma qualidade. Ao meu lado dorme a mulher que eu amo e amarei sempre. Casei-me com ela há 33 anos, passei mais da metade da minha vida com ela. E, finalmente, consegui ser bem-sucedido na coisa que eu sonhava: ser escritor. Então, se a Indesejada das Gentes vier amanhã, ela será bem-vinda.”

Novo livro de Paulo Coelho já é um campeão de vendas.

Manuscrito encontrado em Accra trata dos valores que movem nossas vidas. O Copta é o seu alter ego? As palavras dele são o seu legado?

As palavras do Copta não são meu legado, meu legado é minha obra inteira. Mas o Copta é, sim, meu alter ego, só que é mais sábio que eu, não tenho toda aquela sabedoria. Quando o escritor escreve, entra em transe, conecta-se com o que chamo em O Alquimista de “a alma do mundo”. E este livro é uma homenagem ao Khalil Gibran e a um livro já esquecido, infelizmente, que é O Profeta.

Frases e expressões de Manuel Bandeira, de Shakespeare e da Bíblia aparecem no Manuscrito encontrado em Accra. São leituras recorrentes suas? Que livros não saem da sua mesa de cabeceira?

O que não sai da minha mesa de cabeceira é o meu Kindle. Nele há coisas que eu sempre releio, como Jorge Luis Borges e a Bíblia. Também gosto muito de William Blake. Sou partidário de que você leia um livro e depois o deixe “viajar”. Quando vejo um livro meu usadíssimo, me dá uma enorme alegria, porque sei que foi lido por várias pessoas. Tenho poucas leituras recorrentes, mas leio muito. Ler, pra mim, é um dos grandes prazeres da vida.

Como a Jerusalém do manuscrito, o mundo de hoje vive uma crise financeira e de valores éticos e morais. Como você responde à pergunta da quarta capa do seu livro: Quais são os valores que restam depois que tudo foi destruído?

O único valor que se deve manter é a coragem. Quando não se tem coragem, procuram-se outros valores que eu abordo no livro. Quando resolvi escrever Manuscrito encontrado em Accra, pensei em como hoje em dia ninguém tem mais coragem, ninguém ousa e todos se acomodaram. Não “compro” muito as crises financeiras e de valores morais e éticos. Acho que é justamente porque há muito medo de ousar que as pessoas estão mais conservadoras e rígidas, não importa se são cristãs, judias ou muçulmanas. No fundo, o mundo está caminhando para um fundamentalismo religioso. Existe uma lei judaica que diz: “Não faça ao seu vizinho o que você não quer que o seu vizinho faça com você.” Esse é o grande valor moral e ético a ser respeitado, é a regra de ouro. Ao usar Jerusalém como cenário do livro, quero mostrar que é perfeitamente possível conviver com o vizinho sem tentar impor valores.

Paulo Coelho é membro da Academia Brasileira de Letras desde 2002.

Hoje você é um dos autores que melhor lida com o mundo digital e suas oportunidades. Seu livro, por outro lado, trata da tradição oral, depois imortalizada num pergaminho. Você acha que o velho e o novo podem conviver quando se trata de comunicação? Como enxerga o futuro do livro?

O futuro do livro passa por outras plataformas. Quer dizer, haverá o suporte eletrônico, haverá o suporte das redes sociais, teremos muitas maneiras de escrever. Mas o livro nunca vai deixar de existir. Hoje em dia, o escritor tem uma gama muito maior de possibilidades, que devem ser exploradas e não estão sendo. Ou melhor, estão sendo exploradas por pessoas que são chamadas de nerds enquanto os intelectuais ficam reclamando da morte da leitura – o que não é novidade, eles sempre reclamaram disso. É preciso ter curiosidade, a inocência de que fala William Blake de ver as coisas como novas. Quando eu descobri a rede social, me deu um imenso prazer e se tornou um instrumento muito útil. Então, o velho e o novo não só podem conviver como são inseparáveis. As novas tecnologias e as tradições orais devem e podem conviver. Procuro alimentar meus blogs e meus posts com as histórias que eu aprendi, da infância até hoje, que é a melhor maneira de transmitir qualquer pensamento. A literatura passa por uma mudança radical de estilo. A maior parte dos chamados intelectuais consagrados não está vendo isso. Eu me surpreendi com uma recente entrevista do Umberto Eco dizendo que era contra o iPad até que comprou um e se apaixonou. Eu acho que é o medo do desconhecido, não só em relação à tecnologia, mas a muitas outras coisas. A gente tem que se permitir essa inocência, esse deslumbramento ou, para usar uma expressão do Manuel Bandeira, esse alumbramento.

O Copta fala que “Perder uma batalha, ou perder tudo, nos traz momentos de tristeza. Mas, quando eles passam, descobrimos a força desconhecida que existe em cada um de nós”. Qual derrota foi mais transformadora para você?

A derrota que mais me motivou foi achar que nunca iria escrever, nunca realizaria o meu sonho. Naquele momento, aos 39 anos, eu era um homem derrotado, dizia que tinha sonhado o impossível. Aquele foi o meu momento de derrota. Logo em seguida fiz o Caminho de Santigo e passei por uma transformação radical. Cheguei em Santiago de Compostela e pensei duas coisas: primeiro, o caminho não acaba aqui, ele começa aqui; segundo, eu vou queimar todas as minhas fontes e me dedicar a escrever. Se vai dar certo ou errado, eu não sei, mas não posso ser um homem derrotado como era no início desse caminho. E, graças a Deus (Deus é o Deus dos valentes), consegui chegar aonde cheguei. Mas ainda falta muito, não cheguei ao final do meu caminho. Acho que o final do caminho de um escritor é quando ele morre. Ele tem sempre um novo livro para escrever.

Paulo Coelho é a segunda celebridade mais influente do Twitter, segundo a revista Forbes.

No manuscrito, o grego também nos fala da beleza e dos desafios das novas paisagens quando temos a coragem de mudar. Que desafios ainda o movem?

O desafio básico que tenho é escrever um novo livro. Mas como escrevo a cada dois anos, passo a ter outros desafios, como viver a minha vida de acordo com os valores que julgo pertinentes, como a simplicidade e o despojamento, mas ao mesmo tempo ter a alegria de fazer aquilo que tenho vontade de fazer. No fundo, as coisas que me dão mais prazer são baratas ou completamente gratuitas, como andar ou praticar arco e flecha. O meu desafio é sempre acordar com uma nova pergunta na cabeça, alegre, contente de estar vivo, e não pensando que não tenho nada para fazer ou que não tenho mais desafios ou que tenho muitos. Os desafios surgem a cada dia e, a cada dia, eu os resolvo.

Copta define o sucesso como “poder ir para a cama cada noite com a alma em paz”. E para você, o que é o sucesso?

Sucesso é isso: ir para cama a cada noite com a alma em paz. É poder encontrar a Indesejada das Gentes e dizer “combati o bom combate e mantive a fé, fiz as coisas que queria fazer, fiz com toda a intensidade que eu precisava fazer. Errei muito, acertei muito, mas a Indesejada das Gentes bateu na minha porta e minha alma estava em paz”.translate finnishпродвижение сайтовbanc debinary optionsбесплатная консультация юриста киевantiban-warfaceосновы seo