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Entrevista

“Essas mulheres são mais fortes do que eu sempre julguei ser”

Gabriela Ferraz, organizadora da exposição ‘Mulheres Refugiadas’, fala sobre a mostra e a relação que estabeleceu com essas grandes mulheres

Entrevista

“Essas mulheres são mais fortes do que eu sempre julguei ser”

jenniffer.hoche • 02 de março de 2016 • 07h50

O que despertou seu interesse por conhecer mais sobre a vida de mulheres refugiadas?
Sou feminista há muitos anos e trabalhei durante um ano com mulheres vítimas de violência sexual, na República Democrática do Congo. Essa experiência mudou minha vida em muitos sentidos, abrindo meus olhos para diferentes realidades. Nos últimos três anos, trabalhei como advogada em uma organização que acolhe solicitantes de refúgio em São Paulo e ouvi mais de 560 histórias de vida diferentes. Algumas delas me marcaram de uma tal forma que eu não pude permitir que passassem pela minha vida sem uma maior aproximação.

Como foram os primeiros contatos com elas?
Os primeiros contatos foram profissionais. Nos conhecemos formalmente e, a partir dai, criamos uma amizade e vínculos que foram muito além dos documentos e dos papéis. Quando trabalhamos em contato direto com pessoas é impossível segurar os sentimentos dentro da caixinha do profissionalismo e, muitas vezes, acabamos nos envolvendo de uma forma muito intensa. Hoje nossa relação é de cumplicidade. Posso dizer que somos amigas e torcemos uma pela felicidade da outra.

E em que momento surgiu a ideia de fazer uma exposição fotográfica? Como foi o convite para que elas participassem da sessão de fotos?
Em março de 2015, o Victor Moriyama (fotógrafo) me chamou para fazer uma reportagem sobre a legalização do aborto no Brasil. Eu topei na mesma hora, mas, ainda na mesa do café, fiz uma contraproposta: “Que tal se, além desse trabalho, começássemos a desenvolver um projeto com mulheres refugiadas? Um projeto que trabalhasse a auto estima das mulheres e, ao mesmo tempo, sensibilizasse os brasileiros para a causa”. Ele não pestanejou em aceitar e, no dia seguinte, de manhã, me escreveu perguntando: “Aonde devo ir?” Assim nasceu a ideia da exposição, envolvendo um trabalho de aproximação, de confiança e dedicação que durou quase 1 ano.

Você também está trabalhando em um documentário sobre as histórias dessas mulheres, certo? Como está indo esse projeto?
Queremos produzir um documentário e um fotolivro, mas, esses dois projetos ainda estão na esfera dos sonhos a realizar. Estamos tentando levantar fundos para que eles se tornem lindas realidades e esperamos que a exposição possa alavancar esse processo.

Qual foi o maior aprendizado que toda essa experiência te trouxe?
O maior aprendizado é, sem dúvida, a mudança de paradigmas. Muitas vezes, enxergamos as refugiadas como vítimas de uma situação social, como pessoas fracas e que precisam de ajuda. Na verdade, todas essas mulheres são muito mais fortes do que eu sempre julguei ser. São mulheres que enfrentaram a dor de uma separação, cruzaram oceanos e vivenciaram as violências mais atrozes, mas que seguem sorrindo e tentando se reerguer com dignidade e amor no coração. Eu não sei se seria capaz de fazer o mesmo.

Haverá um bate-papo na Fnac Paulista com algumas dessas mulheres. Quais delas virão? Pode contar um pouco sobre suas histórias?
Estamos trabalhando para que todas estejam presentes durante o lançamento da exposição. Queremos que elas se sintam bem, felizes e realizadas com os retratos. A Jonathan, solicitante de refúgio no Brasil, nos ajudará durante o debate com as autoridades brasileiras, falando um pouco sobre a sua experiência nos temas de gênero e refúgio. A Jonathan era professora das meninas que foram sequestradas pelos terroristas do Boko Haram no Norte da Nigéria e, por acreditar no poder da educação de mulheres, se tornou um alvo do grupo. Certa madrugada, ela precisou fugir do seu país a pé, pela floresta, levando consigo apenas três roupas e a saudade do marido e dos quatro filhos que ficaram para trás.

 

Entrevista: Carolina Porne