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Entrevista

‘Eu sou a mulher do fim do mundo’

Elza Soares dá um show de interpretação, força e sensibilidade no cenário apocalíptico de ‘A Mulher do Fim do Mundo’

Entrevista

‘Eu sou a mulher do fim do mundo’

jenniffer.hoche • 02 de março de 2016 • 10h30

Depois de 60 anos de carreira e com um álbum que foi eleito o melhor de 2015 segundo a Revista Rolling Stone, Elza Soares dá um show de interpretação, força e sensibilidade no cenário apocalíptico de ‘A Mulher do Fim do Mundo’. Exuberante como ela, o disco apresenta ruídos e acordes dissonantes que se misturam, transitando por diversos gêneros do samba, e refletem um mundo em colapso, enquanto ela resiste e implora: ‘me deixem cantar até o fim’.

Idealizado pelo produtor e baterista Guilherme Kastrup, o projeto contou com grandes nomes da vanguarda paulistana como Kiko Dinucci (guitarra), Marcelo Cabral (baixo), Rodrigo Campos (guitarra), Felipe Roseno (percussão), Celso Sim (direção artística) e Rômulo Fróes (direção artística), que renovam o trabalho de Elza Soares a partir de temas muito atuais, como transsexualidade, violência doméstica, narcodependência, a crise da água e a morte. São onze faixas, pela primeira vez um disco inteiro só com inéditas dela, na voz de uma das maiores cantoras do Brasil.

Elza Soares em A MULHER DO FIM DO MUNDO - Credito Marcos Hermes (1)

A mulher do milênio, a Tina Turner brasileira ou simplesmente Elzinha. Depois de 60 anos de carreira, quem é Elza Soares?

A mulher do fim do mundo. Uma mulher que sobreviveu, que é esperta e que sabe de algumas coisas, mas não sabe de tudo porque ninguém tem esse poder, mas passou por algumas coisas na vida que serviram como lição. É uma mulher que conhece algumas coisas boas das vidas… As más e ruins também, mas ela sempre escolhe as coisas boas pra deixar como mensagem às pessoas.

 

Como foi ter feito o melhor álbum de 2015?

Emocionante. A gente não esperava que tivesse uma repercursão assim tão grande. Esse disco pra mim é como um presente divino… Foi quando papai do céu, depois de tanta coisa, resolveu me dar um presente.

 

Como você faz pra se adaptar às novas gerações da música
e continuar com esse trabalho que se atualiza tanto a cada disco novo?

Conviver com a juventude é muito fácil. Basta entendê-los. É falar a linguagem deles, porque eles querem uma linguagem. Quando você fala a linguagem deles dá tudo certo.

 

Tem algum exemplo de algum desses nomes que trabalharam com você no projeto desse disco, quem fez muita diferença pra você na produção deste disco?

O Kastrup (Guilherme Kastrup). Ele foi ‘o cara’, o mentor do CD. Ele foi produtor, foi diretor, é o diretor de show, então é um cara muito fácil de se conversar, pois as respostas que ele tem são fáceis pra gente também, diretas. É muito doce, é uma pessoa maravilhosa. O Kastrup fez muita diferença, sim.

 

Como aconteceu o processo de desenvolvimento do disco?

Eu nunca parei no tempo. Estou sempre buscando as coisas novas, modernas. Vou buscando, mentalizando, não fico parada num só tempo. Quando chegou a ideia de ‘A Mulher do Fim do Mundo’ não foi difícil desenvolver, pois eu já vinha conversando com a juventude e já estava com a linguagem da música moderna na cabeça. Por ter passado por toda uma história até chegar aqui, posso dizer que a experiência de vida também colaborou para que fosse um processo bastante produtivo e tranquilo.

 

Como você enxerga a mulher hoje na sociedade?

Eu enxergo a mulher hoje mais ativa, com mais propriedade pra falar, pois até então a mulher não tinha voz. Era invisível. Hoje a mulher é vista como um ser muito forte. Ela está muito mais ciente de que precisa ser ativa, que precisa responder e esbravejar se necessário pelos seus direitos.

 

Você sofreu bastante e não teve voz, não teve espaço pra falar.

Não tive espaço não. Por isso hoje eu uso a música pra dizer tudo o que ficou entalado na minha garganta.

 

Na música Benedita, você fala também da questão da violência na visão dos travestis, da comunidade trans. Pode comentar?

Benedita é um personagem do submundo dos travestis e das drogas. A violência existe porque ainda há muita falsidade dentro dessas comunidades, muita mentira. Gente que diz ser ‘machão’ e não é, gente que escolhe ser mulher, mas ainda é muito submissa. São ‘mulheres’ muitas vezes caladas que precisam ter voz. Sou tão louca por eles que dou espaço em minha música para terem voz também.

 

No disco, percebemos bastante a presença da música africana, principalmente na faixa ‘O Canal’. Como a música africana direciona o seu trabalho?

Muito bem, pois no fundo eu sou uma africana também. Não há dificuldade pra falar na minha própria linguagem. E é tudo tão bonito, né?

 

Elza Soares em A MULHER DO FIM DO MUNDO 1 - Credito Marcos Hermes

 

O samba comemora 100 anos em 2016. O que é o samba pra você?

Sempre fui uma criatura que buscou colocar dentro do samba alguma coisa diferente e sofri muito porque as pessoas não aceitavam e diziam: ‘ela está inventando, o samba não é isso, o samba não é aquilo’. Mas, gente, o samba é tudo: o samba é rock, o samba é funk, o samba é a raiz. Você pode brincar com o samba da maneira que você quiser, até se dividindo dentro dele. E o samba está crescendo muito. As pessoas estão perdendo um pouco o respeito porque normalmente você só ouve samba durante o carnaval. Acaba o carnaval e você não ouve mais samba nas rádio, pois não temos uma só pra tocar samba,. Uma ou outra que toca, mas não tem esse canal forte de música brasileira. O samba tem pouco espaço na música, quase nenhum. Ele acaba sendo engolido pela música estrangeira.

 

E quem seriam os grandes nomes do samba pra você?

Gosto muito da Alcione. Tem uma bela voz, é uma grande intérprete, gosto muito dela.

 

Você sempre diz que é uma mulher de muitas emoções. Como você cuida dessas emoções?

É cantando pra não enlouquecer. São muitas emoções dentro de mim. Viver é uma emoção. ‘Dentro da vida são vários tipos de emoções. Temos que saber conviver com elas de uma maneira tranquila, pra conseguir sobreviver, pra não morrer. A emoção pode matar.

 

O DVD do show em homenagem ao Lupicínio Rodrigues deverá ser lançado em abril. Você pretende registrar ‘A Mulher do Fim do Mundo’ também?

Vamos, se deus quiser! Não podemos deixar de registrar.

 

E como está a sua saúde?

Ótima, bem, gostosa, maravilhosa. Por mais que a coluna esteja meio ‘braba’, mas a saúde está perfeita, graças a Deus. Fiz essa cirurgia recentemente na coluna, operei a cervical e a lombar de uma vez. Até me recuperar completamente ainda falta um pouco. Estou fazendo fisioterapia todos os dias. Mas o restante está maravilhoso.

 

Alguns boatos dizem que você será homenageada em 2017 por uma escola de samba no Rio.

Estou sabendo dos boatos, mas até chegar o convite mesmo, é tudo boato. Mas sei que é da escola onde nasci, a ‘Mocidade Independente de Padre Miguel, a minha escola. Mas como não tive o convite oficial, levo como boato. Mas meu deus do céu, se for isso eu vou ficar louca (risos).

 

ENTREVISTA GUILHERME KASTRUP

 

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Você esperava produzir o melhor álbum de 2015?

Desde o princípio da ideia sabíamos que esse encontro da Elza com esse grupo da nova vanguarda paulistana produziria um grande álbum. Quanto a ser o melhor ou não é um julgamento que não nos cabe, e sim a quem ouve e vota. Não pensei sobre isso, nem antes, nem mesmo agora. Na verdade não acredito em competição dentro da arte.

 

Como surgiu e se desenvolveu a ideia de criar o primeiro disco de músicas inéditas de Elza Soares?

A ideia inicial foi fazer um disco de releituras de sambas clássicos da Elza, rearranjados pelo grupo. Depois me dei conta de que seria um desperdício, pois estávamos rodeados de grandes compositores, além de grandes instrumentistas. Propus então a Elza mudarmos o projeto para um álbum de inéditas. Só mais tarde , em uma conversa com ela, percebemos que seria o primeiro totalmente de inéditas de sua carreira. A partir disso, pedi aos compositores que fizessem ou selecionassem as músicas para a Elza seguindo uma temática de sexo e negritude, como foi solicitado pela cantora. Escolher 11 canções, dentre 50, não foi uma tarefa fácil. Fomos até o apartamento dela no RJ e apresentamos as canções. De cara a Elza curtiu e selecionou suas preferidas.

 

Como foi juntar um núcleo criativo com alguns dos principais nomes da música paulistana atual para trabalhar com uma referência na música há mais de 60 anos?

A ideia do projeto nasceu desse encontro, que aconteceu no disco e show de lançamento do CD Eslavosamba, de Cacá Machado, que produzi e do qual fazia parte esse mesmo núcleo de músicos. Kiko Dinucci, Rodrigo Campos, Celso Sim e Romulo Fróes. Quando Elza ouviu o arranjo que fizemos para Volta por Cima ( Paulo Vanzollini ) , disse “adoreeei essas guitarras, a bateria. É samba rock´n´roll!!” E eu senti que havia uma fagulha comum entre a estética do grupo e Elza. Quando acabou o show, eu e Kiko comentamos que precisávamos fazer algo juntos com ela. Ali nasceu a fagulha da ideia.

 

E o resultado foram arranjos fortes, pesados, cheios de distorções, mas muito intensos… Isso é quase um resumo de quem é Elza Soares, de sua história?

Resumir Elza Soares é uma tarefa impossível. Esse resultado é um disco que foi inteiro pensado e dedicado a ela, por um grupo de uma geração que a admira profundamente. Elza representa uma voz muito importante, não só musicalmente, mas em toda a postura libertária e pelos direitos igualitários das minorias.

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Pouco antes do lançamento do disco, Elza perdeu um filho. Como foi estar com ela neste período tão importante para sua profissão, mas tão dolorido pela questão pessoal?

Elza é uma Fênix, com capacidade de superação inacreditável. Quando houve esse incidente, ela ficou profundamente abalada, mas foi lindo ver como a música foi cicatrizando pouco a pouco novamente.

E a experiência de ver o resultado deste trabalho ao vivo no palco, frente ao público?

Está cada vez mais emocionante! Fizemos alguns shows, como no Teatro Casa Grande, no Rio, no Teatro Pompéia em SP, e no Teatro Castro Alves em Salvador, que pareciam insuperáveis em emoção. Mas recentemente fomos ao Festival Psicodália em Sta Catarina, e tivemos 6 mil jovens cantando literalmente todas as músicas em uníssono, e superou ainda todas as emoções! Foi mágico! Tenho a impressão que estamos em uma reta ascendente de emoção e contato com o público. É lindo ver como o discurso desse trabalho representa a voz de muita gente, e vem tomando ares de Movimento! Movimento pelo respeito a diferença! Movimento humanitário!

 

A_Mulher_do_Fim_Do_Mundo_CAPA   Elza Soares: ‘A Mulher do Fim do Mundo’ – disponível na Fnac Brasil

 

Entrevista: Jenniffer Hoche
Fotos: Marcos Hermes e Divulgação