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Entrevista

Fotografar com câmera ou com celular? Eis a questão…

Iatã Cannabrava, diretor geral do Paraty em Foco, fala sobre fotografia em dispositivos móveis

Entrevista

Fotografar com câmera ou com celular? Eis a questão…

jenniffer.hoche • 01 de setembro de 2015 • 09h45

No mês em que acontece o 11º Festival Internacional de Fotografia – Paraty em Foco, um dos maiores do Brasil e da América Latina, conversamos com Iatã Cannabrava, diretor geral do evento e fotógrafo fundador do Estúdio Madalena, produtora cultural consagrada neste mercado, e falamos um pouco sobre o tema deste ano, ‘a representação e a autorepresentação na era dos dispositivos’ e também refletimos sobre questões acerca deste universo.

Fotos: Sara de Santis

Como você enxerga a democratização da Fotografia?

Da mesma maneira que o conhecimento baixou dos mosteiros para as cidades ou burgos com o advento dos tipos móveis de Guttenberg, a fotografia desce do quarto escuro para o além-burgo do anel periférico das grandes metrópoles, se incorporando ao gesto social de todas as classes, através da sua forma digital tecnológica atual. Ou seja, saiu da mão de poucos e, principalmente, de especializados, e foi para a mão de uso comum, assim como a escrita é de todos e não só dos poetas. Não costumo e não gosto de avaliar isto como bom ou ruim, principalmente porque é um fato, e aos fatos deste porte curvamo-nos até que a história diga algo mais acautelado pelo tempo.

Você acha que a onipresença da Fotografia de dispositivos móveis altera a maneira como vivenciamos os acontecimentos?

Sim. O acontecimento está no bolso de cada um. Somos um pouco o que fotografamos e fotografamos muito o que somos. Mas, de qualquer maneira, acho que precisamos de um pouco mais de tempo para entender aonde tudo isto vai nos levar. A mim pessoalmente me agrada muito toda esta subversão de valores, mas temo descobrir em milhares de fotografias de um amanhecer que tudo isto estava instrumentalizado a serviço de algum fim estrutural da manutenção dos status quo vigentes. Ou seja, fizemos parte da maior campanha de marketing nunca vista antes na história.

E para o Jornalismo, ela contribui?

O jornalismo, segundo Fred Richin, morreu no momento em que não houve necessidade de divulgar a fotografia de Bin Laden morto. Se por um lado se fotografa tudo, nenhuma destas fotografias é necessariamente necessária. Não sei o que pensar a respeito de tudo isso. Acho que o papel de coordenador do festival me leva a ser um porta-bandeira de dúvidas. E não me desagrada nem um pouco a não-coerência dos discursos de hoje. Posto que, em nome da coerência, muito sacrifício humano já foi feito.

IATA_by_Ekaterina_KholmogorovaComo educar através da Fotografia?
A sua universalidade — fotografar em alemão ou mandarim é a mesma coisa ou muito parecido — faz da fotografia um instrumento mágico do processo de ensino e a sua aplicação digital – intenção x resultado. De forma imediata, conduz à confirmação da experiência que acredito que seja o grande acelerador do processo de aprendizado. Me lembra muito as experiências de química nas escola. Aquelas coisas intangíveis na oralidade, se tornavam mágicas e simples.

Como fazer de um indivíduo comum um protagonista cultural?
Todos somos absolutamente comuns e assumimos ao mesmo tempo determinados protagonismos. Uns mais públicos, outros mais privados. Não acredito que seja possível transformar alguém em empreendedor. Empreendedorismo é uma espécie de energia vital que alguns têm diferente de outros. Tenho grandes amigos com grandes talentos que preferem ser funcionários de uma estrutura e poder Dedicar em silêncio horas a reflexão, pensamento e construção de ideias, muitas com grande utilidade para a sociedade. Assim como conheço outros que são capazes de organizar, de regimentar o inconsciente coletivo para ações específicas. Enfim, acho que a verdadeira resposta para a sua pergunta é que somos todos muito diferentes. E saber respeitar a diversidade é o que nos faz interessantes.

O que você pensa a respeito das publicações fotográficas?

Sou suspeito duas vezes. Por um lado, fã completo do movimento chamado hoje de fotolivro – acredito que as narrativas visuais impressas são a grande expressão que a fotografia teve tem e terá por longos anos. Suspeito num segundo plano para citar qualquer publicação, posto que, sou editor, mas recomendo a todos viver a experiência do fotolivro, seja colecionando ou folheando.

Qual a sua avaliação sobre o contexto da produção fotográfica no Brasil e na América Latina?
Não há dúvida nenhuma, se sabemos disto com mais certeza desde que organizamos o Fórum junto ao Itaú Cultural, que a fotografia no continente tem se desenvolvido como linguagem madura e própria. Mas sabemos também que as dificuldades não específicas do campo da imagem, mas as dificuldades financeiras do campo criativo como um todo no continente, nos deixa ainda distante do estágio ideal ou daquilo que chamamos do pleno direito à cultura no país.

Quais os maiores desafios e as melhores oportunidades da área atualmente?
A fotografia hoje, mais que uma função, é um campo variado. É possível trabalhar com fotografia sem ser fotógrafo, e é isso o que há de mais fantástico nessa nova era. Existe espaço para muita gente com muitas e criativas funções. O grande desafio, por outro lado, é o de saber se reinventar na hora certa. A puxada de tapete é rápida, suave e seca. Podemos ficar sem chão num piscar de olhos ou naquilo que chamávamos de ‘clique’.

Você acha que a iniciativa privada se preocupa com as questões culturais do país?
Vivemos uma institucionalização no meio da crise. O país se debate sobre vícios antigos, mas por outro lado, muitas instituições de pequeno, médio e grande porte constituem o que provavelmente devemos chamar de uma nação. Nesta nova configuração que acredito ser possível, não é ser Estado ou ser Terceiro Setor que faz a diferença e, sim, o estado de consciência do valor do simbólico na construção de uma sociedade melhor.

Qual a importância da reflexão sobre a fotografia para o Paraty em Foco e para outros grandes festivais?
Reflexão e pensamento são o cotidiano do indivíduo. Quando não operamos deste modo estamos nos robotizando e assumindo a burocracia além do necessário. Não só o festival, mas toda ação, ao meu ver, deve conter suas doses de reflexão e pensamento e suas doses de emoção e entrega.

Pode citar alguns destaques desta edição do Paraty em Foco na área de Fotografia?
Vou citar um de nossos convidados: por elegância a sua trajetória, idade e competência vou citar Arno Rafael Minkkinen, um homem que tem consciencia do seu corpo no espaço da natureza, transformando esta relação espaço-natureza em obras de mimese fotográfica como poucos fizeram. Sou um fã de seu trabalho muito antes de pensar em fazer o festival.

E quais são os encontros de destaque que vão levar à reflexão sobre o uso de gadgets no registro histórico e cultural?
O mexicano Francisco Mata Rosas dará o workshop “Parafraseando com dispositivos móveis” que vai passar por questões teóricas e autores clássicos desconstruindo e buscando novos significados para o universo da fotografia com celulares e dispositivos contemporâneos. Além de fotógrafo, o Mata Rosas é curador e tem desenvolvido muitas pesquisas baseadas na fotografia atual com celulares, instagram e etc. Entre os temas que ele vai trabalhar estão a identidade, a apropriação artística e o corpo.

Pode falar sobre os novos e/ou próximos projetos do Estúdio Madalena?
A curadoria da exposição do Martin Parr no MIS, o 4o Forum Latino Americano de Fotografia e um centro cultural numa cidade próxima. Assim como atividades em outras cidades e estados em outras regiões do país. Acreditamos que o intercâmbio com esta nação criativa e com o continente tão criativo quanto trará ao Estúdio Madalena muito aprendizado.

 

Entrevista: Jenniffer Hoche

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