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Entrevista

Frevo com samba

Elba Ramalho, depois de tantos carnavais, acabou virando samba-enredo

Entrevista

Frevo com samba

jenniffer.hoche • 02 de fevereiro de 2017 • 13h36

Talvez não exista outra festa tão brasileira quanto o Carnaval. A folia dessa época do ano é tão nossa que cada cantinho do País tem a sua versão da festa. No entanto, Elba Ramalho parece transitar por todas elas com tranquilidade. A artista, que já desfilou na Sapucaí e conduziu blocos de Carnaval no Nordeste, agora se torna samba-enredo da escola paulistana Tom Maior.

Contudo a vida de Elba vai além das grandes avenidas do samba: ela lançou no final do ano o DVD Grande Encontro, em parceria com os companheiros de longa data Alceu Valença e Geraldo Azevedo.

Em entrevista exclusiva para a Universo Fnac, Elba Ramalho mostra o quanto é uma artista completa, que vai do samba no pé ao forró em um piscar de olhos.

 

Ô abre alas, que ela vai passar!

A história de Elba Ramalho vai virar samba: a artista será homenageada pela escola de samba Tom Maior, que abrirá os desfiles do Grupo Especial de São Paulo, no dia 24 de fevereiro. O título do enredo é “Elba Ramalho canta em oração o folclore do Nordeste – Toque sanfoneiro forró, frevo e xaxado”.

“Fiquei honrada e recebi a notícia com muita alegria. Pelo que sei, está correndo tudo bem e a Tom Maior tem demonstrado muito carinho por mim”, conta Elba. Não será a primeira vez em que a artista tem uma relação com as avenidas do samba. Em 1999 ela sambou a frente da bateria da escola de samba Unidos de Vila Isabel. “A escola estava homenageando a cidade de João Pessoa naquele ano. Estar ali foi uma experiência incrível”, relembra.

Galo da Madrugada 2015_foto Beto Almeida
Afinal, o que é o Carnaval para Elba? “É a festa do povo. Fico é feliz por ser uma festa que tem uma tradição afetiva no meu coração. Meu pai era músico de orquestra. Cresci com esse Carnaval de Pernambuco lá na minha Paraíba. Depois conheci os carnavais do Rio, de São Paulo e da Bahia. Em qualquer destes lugares, o coração dispara no carnaval”.

 

Encontro de amigos

O Grande Encontro_Marcos Hermes (2)A história de Elba Ramalho, Alceu Valença e Geraldo Azevedo vem de anos atrás, como ela mesma relembra. “Tenho uma relação de muito sentimento com Geraldo, sou madrinha de uma das suas filhas. E as minhas filhas adoram o Geraldo! Cheguei a dividir moradia com ele quando cheguei ao Rio de Janeiro. Somos realmente cúmplices. Com Alceu, a relação também é fraterna, mas se revela mais forte no palco. Sou a cantora que mais gravou Geraldo Azevedo, ele é o compositor. Alceu é um grande artista, canta bem, escreve bem, é um ‘entertainer’ como poucos.  Só posso agradecer por fazer parte deste projeto e ter o privilégio de dividir o palco com estes dois amigos queridos”.

A turnê Grande Encontro já aconteceu outras duas vezes, com outras configurações. As trajetórias musicais de Elba Ramalho, Alceu Valença e Geraldo Azevedo se encontraram na década de 1970, quando se fixaram no Rio, mas o primeiro CD em conjunto saiu apenas em 1996. Nessa versão, Zé Ramalho também fez parte do encontro. No ano seguinte, lançaram um CD de estúdio, mas sem Alceu Valença. Em 2000 veio a última edição do Grande Encontro; somando os três álbuns, o grupo de amigos já vendeu mais de um milhão de cópias.

Sobre a versão mais recente do Grande Encontro, Elba conta que a ideia surgiu naturalmente durante 2015, quando ela e Geraldo Azevedo estavam em turnê juntos. “Estava prevista a gravação de um DVD deste espetáculo. Por questões burocráticas, a gravação deste novo DVD acabou ficando para 2016. E justamente em 2016 comemoramos 20 anos do projeto original. Já havia o desejo de celebrar esses 20 anos do projeto, então houve uma adaptação do meu projeto com Geraldo para o Grande Encontro. Felizmente, Alceu foi muito receptivo e aceitou na hora. Já o Zé Ramalho acabou declinando do convite em função dos projetos pessoais que já está realizando. Temos um repertório muito vasto, carreiras sólidas e características individuais muito marcantes. As conversas são acaloradas, mas muito divertidas também”, conta Elba.

 

 

Atriz que canta, cantora que atua

É dessa maneira que Elba Ramalho se define, se é que existe uma definição para sua arte. Elba é atriz desde os 14 anos, quando sua professora de literatura criou o chamado Coral Falado Manuel Bandeira, que fazia encenações híbridas da poética nacional e internacional, misturando música, dança e teatro. No entanto, na mesma época conheceu as amigas com quem formaria a banda As Brasas, no ritmo da Jovem Guarda; durante o tempo no grupo, Elba tocou bateria e guitarra. “As duas artes são complexas e sou uma atriz que canta. Ou, uma cantora que atua; dá no mesmo. As duas artes habitam em mim e não podem ser dissociadas. É no palco que me sinto mais viva”, resume.

Como atriz, teve a oportunidade de apresentar Morte e Vida Severina para o próprio autor, João Cabral de Melo Neto. Com sua benção, o espetáculo seguiu turnê pelo Nordeste, chegando a ser apresentado em outras regiões do Brasil também. A história a acompanharia ainda nos cinemas, quando estrelou o filme Morte e Vida Severina, em 1977, no Festival de Cinema de Brasília.

Um ano depois, cansada do universo teatral, Elba volta para o Nordeste e para a música. Estreia o show Baião de 2, na companhia de…Geraldo Azevedo! No mesmo ano é convidada a gravar seu primeiro disco; assina seu contrato com a gravadora CBS, mas volta para os palcos do teatro. Elba seguiu sua carreira assim, com um pé na música, outro na interpretação, mas os dois sempre fincados no palco.

O Grande Encontro_ Marcelo Ribeiro 3Em 1979 lança seu primeiro álbum, Asa de Prata. Hora de encarar o público como cantora, e Elba não decepciona: no ano seguinte se apresenta em diversos festivais pelo Brasil e também na Angola. A artista garante que não importa o tamanho dos palcos ou a quantidade de pessoas, o sentimento antes de começar a cantar é o mesmo. “Sempre dá um friozinho na barriga, por mais que eu esteja bastante habituada e me sinta muito bem no palco. É sempre um desafio cantar e agradar. Tenho profundo respeito pelo público, saber que as pessoas saíram do conforto das suas casas para me assistir, é uma grande satisfação; mas também é uma grande responsabilidade”.

Ao longo dos anos, Elba tornou-se uma das principais representantes da música brasileira, que vai além da cultura nordestina. “Não tenho uma preocupação de preservar um determinado traço cultural, tenho a preocupação de cantar e poder transmitir o meu DNA em cada canção. Tudo o que eu canto, precisa ter a minha cara, precisa ter as minhas origens, minha evolução, minha percepção do mundo e os meus valores. E isto é verdadeiro. Sou uma cantora de ritmos essencialmente brasileiros e eu diria que os ritmos nordestinos são autenticamente brasileiros”, explica Elba.

E como é ser a única mulher no palco? “Como sou intérprete e tenho mais liberdade para escolher a canção mais bonita, penso que a minha dificuldade foi maior. Para cantarmos juntos os tons das músicas não me favorecem, pois são tons para homens. Estou encarando como um desafio cantar em tons tão distantes dos meus tons originais”, explica a artista.