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Entrevista

Lázaro Ramos fala à Fnac Brasil com exclusividade sobre livro ‘Na Minha Pele’

“Não tinha ideia se seria discriminado ou se as minhas escolhas ficariam mais difíceis por causa da cor da minha pele. O que eu entendia eram as limitações de uma família com pouco dinheiro.”

Entrevista

Lázaro Ramos fala à Fnac Brasil com exclusividade sobre livro ‘Na Minha Pele’

jenniffer.hoche • 28 de julho de 2017 • 12h56

Para escrever Na Minha Pele, o ator Lázaro Ramos precisou de um tempo de maturação e uma boa dose de coragem. Ao tratar de episódios íntimos de sua vida, Lázaro estabelece um diálogo franco com os leitores sobre pluralidade cultural, racial, étnica e social. A obra, tal como a própria carreira do artista, transita por uma gama de gêneros. Em determinados momentos se aproxima do ensaio, por outros, da autobiografia, e, por vezes, assume a forma de um diário. É a sinceridade de sua escrita e a capacidade de, com simplicidade, falar de intimidades que incomodam, e também emocionam, que o diálogo se estabelece, tornando Na Minha Pele uma conversa ora afetuosa ora provocadora.

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Por que convidar o leitor a vestir a mesma pele que você?
Para existir um encontro na tentativa da busca de empatia, que é um exercício muito importante hoje em dia. O convite é para estarmos na mesma pele, mas não no sentido apenas da cor do epitélio, que é importante, mas de tentarmos nos aproximar o máximo possível das experiências da outra pessoa e, assim, construir um novo discurso.

Como você chegou neste estilo de narrativa?
Essa narrativa demorou dez anos e ela partiu de uma primeira busca de analisar dados estatísticos do IPEA em 2007 e depois notei, descobri, percebi que, para falar desses assuntos, era preciso entregar um pouco das minhas vivências, das minhas experiências e aí, sim, conseguir criar um diálogo. Os dados analisados como estatísticas não fazem parte da minha vivência e experiência, mas tenta provocar conversas. Acho que aí eu empresto um pouco do meu trabalho de ator: para criar essa narrativa simples afetuosa, mas ao mesmo tempo tentando manter toda contundência dos assuntos incômodos.

O que você acha essencial para a reconstrução do pensamento humano em relação a gestos e comentários carregados de preconceitos?
Acho que nossa construção é diária e a barbárie está sempre muito próxima da gente. Se permitirmos, ela toma conta. Eu sempre procuro crer que o nosso talento natural é o afeto no sentido de ser afetado um pelo outro, construindo assim a nossa história. Mas gestos de preconceito e atitudes preconceituosas fazem parte da nossa história. O importante é a gente se reconhecer preconceituoso e criar uma vigilância ou uma observação no que isso transforma nossa sociedade. Perceber-se preconceituoso, violento ou machista é um passo importante pra acabar com esses problemas que tanto atrapalham nosso desenvolvimento.

Pai de duas crianças, você já antecipou o preconceito aos seus filhos tomando, assim, atitudes para protegê-los? Essa atitude seria um preconceito?
Não existe maneira de você se antecipar ao preconceito e uma vida de vigilância também não é uma vida livre. Eu não crio o meus filhos preparando eles para o preconceito, porque eu acho que o preconceito deve acabar. Eu crio meus filhos para eles serem plenos, felizes e terem autoestima, que são coisas importantes para o combate de um preconceito que apareça. Uma vida onde sua demanda ou ações pra com seus filhos seja permeada por prevenção é uma das coisas que eu acho importante a gente se libertar. Mesmo quando você se acha preparado para o preconceito você nunca está pronto, porque quando ele aparece ainda sim dói, machuca e desestabiliza.

De que forma o programa Espelho colaborou na concepção de seu livro?
O espelho colaborou e muito na concepção do livro. Muitas pessoas que escutei ali são citadas no livro, principalmente porque ao longo desses doze anos de existência o espelho acaba coletando um tipo de pensamento. Pessoas foram juntas para a televisão refletir sobre essa formação de identidade, que digo tanto que é tema do livro. E o bacana é que o espelho possibilitou o encontro de várias vozes de diferentes gerações.  São citada ali, por exemplo, Muniz Sodré, Conceição Evaristo mas também Emicida e Rico Dalasam.

Recentemente, a Universidade de São Paulo aprovou a adoção de cotas raciais em seu vestibular para que, a mesma proporção da população negra, parda e indígena, verificada pelo IBGE, preencha essas vagas. O que você pensa a respeito dessa aprovação?
A diversidade é boa em todos os sentidos locais com maior diversidade são locais mais potentes, eu te respondo essa pergunta dessa maneira, eu acho que a gente precisa aprender a lidar com a diversidade, compreendê-la como potencia criativo, econômico e cultural.

Você já escreveu três livros infantis. A leitura para seus filhos inspirou e colaborou com o ‘ritmo’ necessários nas histórias infantis?
Não, eu acho que o que mais me colaborou para os ritmos das minhas narrativas foi o trabalho com o teatro no Bando do Teatro Olodum onde agente era provocado a ser também autor através de improvisos ou de escritas mais formais. Depois, ainda, organizando e transformando tudo isso em espetáculo; Essa experiência da adolescência é o que me norteia como autor de livro infantis, sendo que tem uma diferença: o primeiro livro infantil que eu escrevi era para criança que eu fui e o Caderno de Rima de João” acho que é pro adulto que meu filho será. Mas são livros sempre com muito bom humor e ludicidade, que são coisas importantes pro meu processo criativo e pro diálogo com as crianças.

Qual foi a maior ‘obra’ pela qual Lázaro passou após o nascimento dos filhos?
Foi me observar mais, observar minhas atitudes. Saber que tudo que eu faço é espelho para eles e exemplo… E ao mesmo tempo aprimorar minha escuta porque às vezes a gente cria o filho intervindo antes mesmo dele expressar seu desejo e essa avalição de quanto eu devo interviu ou não, me policiando inclusive porque sou uma pessoa centralizadora, foi uma obra importante e acabou afetando minhas outras relações.

E isso se estende à sua arte?
Ah! Com certeza se estende à minha arte. A luta é para não ficar obsoleto e dialogar com o meu público no momento em que estou produzindo e criar narrativas que dialoguem com o meu tempo. Um exercício difícil, mas muito prazeroso porque a massa do público é sempre difícil de identificar quem é… Mas eu acho que, se a gente ficar atento todos os dias, a arte acaba sendo influenciada por esse olhar não preparado para o que virá, mas sim um olhar curioso para tudo que se apresenta.

O que você está lendo e ouvindo no momento?
No momento eu estou lendo dois livros: ‘Lima Barreto: Triste Visionário’, ‘Árabe do Futuro 3’… Uma biografia e um quadrinho. De escuta, nesse momento tenho ouvido muito Rincon Sapiência e retomando Caetano Veloso.

Por Jenniffer Hoche