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Entrevista

Mariando…

Maria Gadú e Mariana Aydar em um bate-papo descontraído que vai além da música

Entrevista

Mariando…

jenniffer.hoche • 30 de junho de 2015 • 12h29

Por Beatriz Saghaard e Carolina Porne

Fotos: Carol Siqueira

Beleza: Nelliton Carvalho (cabelo) e Paulo Oliveira (make), do Jacques Janine

 

A Fnac Pinheiros recebeu numa tarde ensolarada Mariana Aydar e Maria Gadú. A proposta era captar um encontro e uma conversa informal. O resultado não podia ser melhor: as duas são muito amigas e essa intimidade contribuiu para que vários assuntos fossem falados de uma maneira espontânea, divertida e intensa. Além de seus respectivos lançamentos – Maria Gadú acabou de lançar o álbum Guelã (Som Livre) e Mariana Aydar lançará em breve seu novo álbum, em parceria com Nuno Ramos – a conversa trouxe peculiaridades do processo de composição de cada uma, formação musical e ainda estimulou a parceria musical entre as duas – um desejo antigo. A prosa foi boa!

Maria Gadu e Mariana Aydar para Fnac - por Carol Siqueira-16
“É quase uma coisa animalesca, um bicho grita, o outro grita e a gente se comunica.”

 

MA: Fui em um show seu e achei muito louco! Os fãs gritavam “é amor, Gadú”, e é mesmo! Achei seu modo de lidar com eles bonito, sabe? Seu show é uma mistura de sentimentos, mas o amor estava em tudo. Não só no show, mas em toda a sua carreira, na sua vida… Eu queria saber como você lida com esse assédio dos fãs e onde é o limite, pra você, entre o amor e a falta de respeito.
MG: Não é uma coisa que eu “aprendi a lidar”, são pessoas e suas atitudes, saca? Eu também encaro como uma forma de amor e tem um lance também que quando elas extrapolam eu chamo a atenção também, troco ideia. Não acho que a gente esteja em um patamar diferente: da mesma forma que elas têm esse carinho por mim, a recíproca é igualmente verdadeira. Eu coloco o bloco na rua para essas pessoas. É amoroso igual: elas gritam demais e eu também grito pra caralho do palco também (risos). É quase uma coisa animalesca, um bicho grita, o outro grita e a gente se comunica.

“Nunca tive problema com a minha sexualidade”

Maria Gadu e Mariana Aydar para Fnac - por Carol Siqueira-57MG: Outra coisa: nunca tive problema com a minha sexualidade. Nenhum, nem social, nem familiar, nem intrapessoal, e isso acaba virando um prisma para pessoas que tem a mesma idade, sentem a mesma coisa, mas passam por algum problema em casa, por exemplo.
MA: Ver no outro uma libertação, um exemplo mesmo.
MG: Exato! Vai além desse lance de “ah, gosto de sapatão” ou “não gosto de sapatão”. Eu nunca fiz nenhum tipo de alusão à homossexualidade ou qualquer sexualidade que seja. Sempre vivi em um ambiente muito familiar, minha mãe me deu apoio em tudo. Várias meninas viram em mim uma possibilidade de mostrar para os pais que tem família que aceita a homossexualidade e que isso é normal. É uma parada muito forte.
MA: E eu achei muito bonito também o respeito que o seu público tem com o seu momento. Algo como “faz aí o que você quiser que a gente tá aqui pra te apoiar”. Pelo menos foi isso que eu senti durante o show.
MG: Eu fiquei surpresa, confesso. Não que eu achasse que eles não fossem gostar – apesar de que “gostar” não é a palavra certa, já que “gostar” é tão relativo. Enfim, achei que fosse causar um estranhamento, que elas fossem achar bem diferente.

“Não foi ‘ah, vou gravar um disco!'; o destino foi me colocando em situações e o disco foi uma delas.”

Maria Gadu e Mariana Aydar para Fnac - por Carol Siqueira-7MA: Ainda falando do seu show, foi tão lindo… Para mim foi como ver um renascimento, dá para ver e sentir que veio de um lugar muito profundo seu, muito intenso.
MG: Acho que isso que aconteceu agora foi a calmaria de uma desova que eu fiz, sabe? Desde que lancei o primeiro disco, eu reuni aquelas canções meio que por força do destino, mais do que um querer próprio. Não foi “ah, vou gravar um disco!”; o destino foi me colocando em situações e o disco foi uma delas. Passei anos e anos acumulando situações maravilhosas, mas que eu não tinha escolhido. Aí eu passei por um período meio de choque, de precisar saber o que eu quero, os meus defeitos e as minhas qualidades… 2013 foi um ano bem pesado também, eu perdi muitos amigos. Aí você para e pensa “caralho, que merda! Se eu não fizer o que eu realmente quero e sonho eu posso morrer. Eu sou perecível”. Aí eu decidi que não queria mais que a vida me levasse, pois ela pode me levar para um lugar que eu não queira! E quando eu chegar nesse lugar nem vou saber o caminho de volta. Foi aí que eu resolvi parar tudo, ficar em silêncio, entender a minha musicalidade. Não que eu tenha essa ambição de ter o controle total sobre mim, mas eu queria ter pelo menos um pouco já que estava sem nenhum. Foi especial chegar no limite das suas limitações e ter surpresas boas. Eu me surpreendi com coisas que eu não sabia que eu sabia. E também coisas que eu achava que sabia e, na verdade não sabia porra nenhuma (risos). Sei lá, acho que esse show e esse momento têm a ver com as luas, em especial uma delas. Estou vivendo uma fase que eu sinto coisas que eu nunca tinha sentido antes, não estou revisitando nada: todas as sensações e em todos os sentidos também, não só musicais. Sabores que eu odiava agora estou gostando, meu ritmo de vida mudou absurdamente e não foi por um esforço. Eu acordei diferente um dia e nesse dia eu parei de fumar, meu relógio interno mudou, meu relógio biológico mudou.

“Ilha Grande é o lugar que eu mais amo no mundo”

Maria Gadu e Mariana Aydar para Fnac - por Carol Siqueira-76MA: Queria saber mais sobre o seu processo de composição: quando começou, se ele muda… Eu sei que “Shimbalaiê “você fez bem novinha, não foi?
MG: Eu tinha 10 anos…
MA: Mentira!
MG: Tinha! Fiz lá em Ilha Grande, onde eu morei um tempo. Deu uma ampliada nesses últimos anos mas continua especial igual. É um lugar que não entra carro, basicamente de pousadas, aquela vilazinha pequena, as trilhas… É o lugar que eu mais amo no mundo. Boa parte desse disco foi feita lá, olha que engraçado!
MA: Desse de agora?
MG: É! Porque eu estava nesse processo e fui pra lá. Eu disse “tchau” pra todo mundo, passei por várias despedidas malucas nesse tempo. E chegou uma hora que eu estava cansada de tanto dizer “tchau” e fui com a Lua pra lá, passar o Réveillon, e terminei o disco lá. E a Ilha Grande foi o lugar onde eu comecei, então foi quase como se eu tivesse recomeçando não outro disco, mas quase que outra vida. Aquela infância me proporcionou assunto até agora…
MA: Peraí, daquela infância dos 10 anos você compôs outras músicas e gravou?
MG: Ah, até compus outras músicas, mas ninguém precisa saber né? (risos) Um monte de baboseira… Fala sério, eu era super hippinha, tem vários reggaes. Já bebia e fumava. Comecei a fumar com 10 anos; não sei como minha mãe é viva até hoje, porque dei trabalho demais (risos).
MA: Deve ser desesperador para uma mãe ver uma criança de 10 anos começar a fumar (risos).
MG: Nunca escondi nada da minha mãe; ela também fumava. Aí a gente foi em uma pizzaria um dia: sabe quando você senta e coloca as coisas na mesa? Ela botou o cigarro e o isqueiro e eu também coloquei o meu. Aí ela “que coisa é essa?!” (risos). Nossa, eu dei muito trabalho… Por exemplo, fiz Shimbalaiê numa ressaca, depois do meu primeiro porre.
MA: Mas hoje você compõe de uma maneira muito diferente de quando você tinha 10 anos?
MG: Não, igualzinho. Vem do além, letra e música juntos. Até os arranjos. Eu tive outras experiências de processos, claro. Por exemplo, a canção que eu fiz com a Mayra Andrade, um vocalize… É muito doido, nós duas estávamos cantando e tocando e a canção ficou assim, enorme. Aí ela “agora a gente tem que fazer uma letra” e eu disse “deixa eu gravar assim porque pra mim ela não tem letra”. Que necessidade maluca de falar em cima do som, né?
MA: Isso é muito louco mesmo. Eu componho a melodia, então pra mim é muito mais difícil criar uma letra para ela…
MG: Porque você não deixa sem letra?
MA: Eu já deixei algumas. Eu senti que não precisava e deixei só o vocalize mesmo. Ou misturei partes sem letra com partes com letra… Mas sou super a favor: acho incrível, lindo.
MG: Eu não sinto falta nem da palavra e nem de um instrumento. Acho a voz por si só um instrumento magnífico.

“Aprendi cantar forró dançando.”

MA: Se tem um lugar que eu moraria esse lugar é Salvador. Ou em Trancoso.
MG: Mas Trancoso não tem nada a ver com Salvador!
MA: Mas tem o mesmo axé, uma vibe boa. Eu vou pra lá direto desde os meus 15 anos, praticamente todo ano.
MG: Foi lá que você começou a curtir forró?
MA: Não, foi antes. Minha mãe era empresária do Luiz Gonzaga quando eu tinha uns seis anos. Então eu o conheci bem novinha. Ela andou com ele muito no fim da vida, foi a última empresária dele…
MG: Nossa, não sabia disso…
MA: Então, eu comecei a gostar de forró por causa dele; não especificamente por causa da música, mas porque eu o achava uma pessoa incrível! Criança convivendo com Luiz Gonzaga, poxa? Era um misto de Papai Noel com Lampião de admiração! (risos). Ele era simpático, me tratava muito bem, me dava presente, escolhia umas bonecas enormes… Aí eu comecei a ouvir os discos dele, os vinis… E ele tinha uma música que falava de Mariana e aí eu achava que a música era pra mim, claro! (risos) Aí que foi vindo esse interesse pelo forró, mas Trancoso e Caraíva também foram fundamentais, porque tinha muito forró pé de serra por lá… Quando veio o boom do forró universitário eu comecei a sair muito pra dançar e foi quando realmente me apaixonei. Acho que eu aprendi a cantar forró dançando. Eu sempre vou no forró: fui semana passada, dancei a noite inteira. Sou dessas que sai encharcada, que dança do começo ao fim! (risos)
MG: Eu fui em um show da sua banda…
MA: Você foi, Gadu?
MG: Fui em alguns até. Acho que a primeira vez que eu vi você se apresentar foi com o Miltinho…
MA: Ele que deu a minha primeira chance (risos). Foi um aprendizado e não tem jeito: forró faz parte da minha vida e é uma coisa que eu amo. Eu estava vindo pra cá de carro ouvindo um disco da Elba Ramalho que ganhei; aquilo começa a me dar umas formiguinhas na barriga e eu penso “gente, eu quero dançar!” (risos). Primeiro eu quero dançar a música, não cantar. E a dança dá muito o ritmo, o que eu tenho que fazer com a voz; a dança me dá o tom.Maria Gadu e Mariana Aydar para Fnac - por Carol Siqueira-6
MG: Você decidiu tocar triângulo porque era um instrumento que permitia que você dançasse ao mesmo tempo?
MA: Não! (risos) Isso é um conflito até hoje quando eu estou cantando: tenho muita vontade de dançar junto! Fico pensando “eu poderia ser duas: uma cantava e a outra ia dançar com a galera”. Mas não dá e tudo bem: eu amo o que eu faço e amo o forró. Mas voltando a Trancoso: você falou de Ilha Grande e Trancoso é muito parecido pra mim. Foi o lugar onde eu criei as minhas primeiras músicas.

“E aí, você não vai compor também?”

MG: Você gravou as suas primeiras músicas?
MA: Gravei. A primeira foi Palavras Não Falam… Agora eu estou compondo bastante, estou me entendendo.
MG: É, eu senti você assumindo mais um lance compositora no seu segundo disco mesmo…
MA: E essa música fala exatamente sobre compor, né? Uma pressão, essa coisa…
MG: Você sente uma pressão para compor?
MA: Sinto sim. Muitas mulheres começaram a compor e vinham perguntar “e aí, você não vai compor também?”. O que eu acho maravilhoso, pois essa pressão de certa forma me instigou a compor e eu fiz isso num momento em que eu não queria escrever pra ninguém, nem pra mim mesma. Essa música era um grito de “eu não tenho que compor!” – mas eu compus (risos). E o processo de compor pra mim é meio fragmentado: a letra sempre vem separada da melodia, mas aí é mais fácil colocar uma música para a letra. Mas quando a melodia vem sem letra é mais complicado. São anos às vezes para finalizar. Ás vezes não consigo terminar sozinha, e então peço ajuda mesmo. Tem músicas que estou pra acabar há uns quatro, cinco anos. E é isso que eu estou a fim de fazer agora, sabe? Pegar essas músicas e fazer alguma coisa com elas: um novo disco, sei lá. Mas é muito bom compor: compor e tocar baixo são as coisas que mais gosto de fazer ultimamente. São presentes que você recebe; eu acho muito estranho dizer que é meu, chamar a música de minha. Às vezes eu fico pensando “será que isso já existe?” e até existe né, afinal a gente é influenciado por tanta coisa… Como a Mayra, que a gente estava falando.
MG: Você acha que a sua música mudou depois que conheceu a Mayra?
MA: Muito. Acho a nossa geração bem legal por isso, tem muitas pessoas talentosas e a gente aprende uns com os outros. Como essa história de compor: se de um lado tinha uma pressão para que eu também escrevesse por outro era também uma motivação para que eu fosse compor. Uma coisa que eu não gostava e não queria fazer é uma das que eu mais amo agora.
MG: Você foi começando a compor sozinha, certo? Em que momento você sentiu que queria convidar alguém para escrever junto com você? Ou os parceiros foram aparecendo?
MA: Eu não tenho muitos parceiros na verdade, meu principal parceiro musical é o Duani, que é um parceiro de vida, que me entende e nós temos essa relação também.
MG: Eu acho muito louca essa parceria musical de vocês…
MA: Por quê?
MG: Ah, não sei… Acho que vocês já têm um relacionamento tão sólido e tão claro e aí vocês percebem que ainda tem uma mágica a fazer, é foda! Sabe, vocês são casados, vocês tem uma rotina, uma filha e ainda achar o tempo para fazer essa mágica? É demais!

“Eu mudei muito depois que virei mãe, é um momento muito forte como mulher. (…) esse disco veio a calhar com esse momento”

BXMaria Gadu e Mariana Aydar para Fnac - por Carol Siqueira-36MA: Outro parceiro que foi muito especial também foi o Nuno Ramos.
MG: Vocês fizeram três músicas juntos né?
MA: Isso, foram três. Eu acho muito louco os encaixes que a gente tem com algumas pessoas, rola uma mágica realmente. A primeira música que eu mandei para o Nuno, que era só uma melodia e que eu não conseguia acabar, ele fez a letra exatamente do que eu estava sentindo quando fiz a melodia! Essa é Tudo Que Trago No Bolso.
MG: E esse novo disco seu? Ele tem as canções do show ou tem outras canç