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Entrevista

Milton Hatoum: entre o Norte e o mundo

O autor estará na Fnac Morumbi nesta quinta, 8/06, às 19h

Entrevista

Milton Hatoum: entre o Norte e o mundo

jenniffer.hoche • 07 de junho de 2017 • 12h21

Ele assinou por alguns anos a coluna Norte, na revista literária EntreLivros e já foi professor de Literatura na Universidade Federal do Amazonas, em Manaus, cidade onde nasceu. Seus contos já foram publicados em antologias no México, na Alemanha, e em várias revistas internacionais. Seus dois primeiros livros, Relato de um certo Oriente (1990) e Dois irmãos (2000), são ambos ganhadores do Prêmio Jabuti de melhor romance e já foram publicados em diversos países. Em sua elogiada obra, a cidade e os costumes de Manaus têm papel muito importante, assim como as influências de outras culturas, como a árabe. Percebe-se a excelência de um pesquisador rigoroso e o primor de um incansável artesão da linguagem. Seu trabalho Cinzas do Norte (Cia das Letras, assim como os dois primeiros), reúne, como ele mesmo diz, “vários temas e conflitos, deixando algumas lacunas para o leitor preenchê-las”. Ele faz questão de manter um estreito diálogo com seus leitores, também por meio de cursos e palestras regulares.

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Da sua casa, em São Paulo, onde mora atualmente, o escritor Milton Hatoum fala com você, em mais uma entrevista exclusiva da revista Contato Fnac:

PORQUÊS
Escrevo porque gosto, e para dar um outro sentido à vida. A literatura é movida pelo desejo e pela reflexão. Quer dizer, por duas vertentes: a primeira é imprevisível, a segunda é calculada, estudada. Por isso, escrever é uma atividade prazerosa e árdua ao mesmo tempo. Como cidadão brasileiro, não sou alheio aos problemas sociais e às questões políticas. A meu ver, um escritor ou intelectual não deve calar diante da injustiça, da miséria, das guerras, da violência e do Poder. 

ILUMINAÇÃO
Não sou muito disciplinado, mas leio e escrevo quase todos os dias. Escrever significa, antes de tudo, ler. Não se escreve boa literatura sem a leitura dos grandes livros. Para mim, as duas maiores fontes de inspiração são a vida e a leitura. A literatura é uma combinação criativa dessas duas experiências. Uma coisa ajuda a outra, e confesso que alguns personagens dos três romances que publiquei foram inspirados por Flaubert, Balzac, Machado de Assis. Há um pouco do Macunaíma no personagem Ranulfo, o tio Ran do Cinzas do Norte. As histórias surgiram da infância, da juventude e dos traumas vividos nessa época. Jorge Luis Borges dizia que a felicidade nos é dada de graça, e que a literatura fala sobretudo de momentos infelizes, de traumas e conflitos.

LABUTA
O talento de um escritor depende de alguma maneira da vocação, mas sobretudo do trabalho, da obstinação, da paciência, da capacidade de observar, imaginar e criar situações de conflito. Nenhuma arte é fácil. Costumo dizer que o romance é a arte da paciência, pois exige vários anos de aprendizagem e amadurecimento.

CRÍTICA, CRIADOR E CRIATURA
Se um jovem autor publicar um bom livro, a crítica certamente vai se manifestar. A crítica surgiu com a modernidade e é inseparável da ficção e da poesia. Crítica e criação fazem parte da obra de poetas e narradores como Charles Baudelaire, Paul Valery, Edward Foster, Marcel Proust e Machado de Assis. Às vezes a crítica é áspera, mas quando é bem argumentada, ela é necessária. Li vários trabalhos acadêmicos sobre minha obra, e não é raro descobrir coisas que só uma leitura analítica poderia apontar. A leitura exigente justifica a literatura.    

TRADUTOR x TRAIDOR
Por volta de 1990, quando o Relato de um certo Oriente começou a ser traduzido, eu tinha que enviar por fax dezenas de páginas para os tradutores. E como havia apagão em Manaus, nem sempre eu podia usar o fax. Aliás, nem computador. Eram apagões sem aviso prévio, blecautes diuturnos, marca registrada daquele nada saudoso governo do PFL. Mesmo assim, consegui manter uma conversa com os tradutores. O fato é que tive sorte com eles. Uma tradução sofrível pode anular o estilo, o ritmo, a linguagem. E há também as palavras e expressões usadas em Manaus, o nome dos animais, das plantas, um vocabulário específico que, às vezes, pede um glossário.

CYBER PRIMATA
Sou meio primitivo diante das novas tecnologias. Uso o computador como se fosse uma máquina de escrever milagrosa, capaz de fazer com rapidez alguns cortes, acréscimos e deslocamentos de textos. Escrevo com uma caneta, depois passo para o computador, em seguida imprimo o texto, e torno a reescrevê-lo. Faço isso várias vezes, até a exaustão. Mas não tenho medo das novidades. O diabo é que se num momento de distração você apertar duas teclas, corre o risco de apagar mil e oitocentos dias de trabalho com a linguagem.

O NOVO DE NOVO?
Sigo o conselho de William Faulkner: em vez de rivalizar com os seus pares, tente ser melhor do que você mesmo. Não acredito no completamente novo. Um dos narradores do Cinzas do Norte escreve numa carta: “Nada é puro, autêntico, original…”. A literatura se faz da literatura, de uma tradição que raramente passa por uma verdadeira ruptura. Proust e Céline foram os grandes narradores que trouxeram novidade à ficção francesa. No Brasil, Guimarães Rosa foi um gênio verbal que levou ao extremo o experimentalismo com a linguagem. Mas mesmo esses escritores assimilaram uma vasta tradição literária.

Entrevista dada a Fernando Sant’ Ana, em
2005, e publicada na revista Contato.