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Entrevista

Música em versos livres

Adriana Calcanhotto em entrevista exclusiva sobre o processo de elaboração do livro, sua relação com outras expressões artísticas e muito mais

Entrevista

Música em versos livres

jenniffer.hoche • 31 de agosto de 2016 • 10h27

Acaba de chegar às lojas seu novo livro, Pra Que É Que Serve Uma Canção Como Essa. Como foi o processo de elaboração dele, em parceria com Eucanaã Ferraz?

Eu resisti muito ao lançamento desse livro. Faz parte do meu temperamento: se eu posso fazer algo que eu nunca fiz antes, eu prefiro a fazer algo que eu já fiz, a olhar para trás. Minha intuição dizia que não era o momento cinco anos atrás, quando o Eucanaã me fez essa proposta. É interessante isso, porque agora que o livro saiu eu sinto que é de fato o momento ideal; ele encerra um ciclo do meu trabalho. É engraçado porque, durante todo esse processo, eu fiz outros livros (Antologia de Poesia Ilustrada para Crianças; Antologia de Haikais) e o momento desse livro chegou naturalmente. Fico contente que tenha sido assim.

 

O livro reúne músicas que você compôs e algumas delas são inéditas, correto?

Sim, ele tem canções inéditas. Canções, porque eu não sei fazer só letra; nunca consegui sentar para escrever apenas uma letra sem melodia. Eu realmente não sei fazer isso (risos). Para mim, cada canção inaugura sua própria forma de ser feita. Um dia desses eu fiz uma canção em 50 minutos; outras vezes leva 10 anos. Cada uma é de um jeito. Foi interessante que, no processo de organização do livro, o Eucanaã queria conhecer tudo e me fez olhar um pouco para trás. Tem canções de 1994 e tem canções de agora. Para as pessoas que não conhecem as melodias que foram feitas para essas letras fica como um conjunto de poemas. Só pra mim que não funciona assim, porque até as inéditas eu sei a melodia (risos). Estão. Até mesmo quando eu leio livros de Vinicius de Moraes ou livro de letras do Gilberto Gil, eu não consigo dissociar.

 

Você também já fez o caminho oposto, pegando poesias de Augusto de Campos e Mário de Sá Carneiro e transformando em música. Como foi esse processo na época?

Na verdade eu faço isso até hoje. É uma coisa que eu gosto de fazer, musicar poesias. No entanto, tem poetas que são “imusicáveis”, como João Cabral de Melo Neto, por exemplo. No instante de ler já me vem a música. Na época do A Fábrica do Poema (terceiro disco da artista, lançado em 1994), eu sabia que o Waly Salomão (poeta) estava escrevendo um poema novo. Ele me ligou, eu estava no estúdio, e ele leu o poema para mim. Quando ele terminou a leitura, eu já estava com a música pronta na minha cabeça! (risos) Cada autor e cada poeta pede uma coisa, e às vezes a música vem de maneira muito espontânea. Às vezes até atrapalha a vida…

 

Como assim, atrapalha?

Ah, você tem um compromisso e uma canção se apresenta. Você tem que ir até o final dela para poder largar. Isso já aconteceu comigo várias vezes, por exemplo, há poucos dias eu fui fazer uma entrevista na televisão e eu fiquei o tempo inteiro com uma canção na cabeça, para não perder, para ela não escapar. Paralelamente, eu estava respondendo perguntas sobre um outro assunto. É incontrolável esse mundo das canções. Eu lembro que quando o Gilberto Gil assumiu o Ministério da Cultura a primeira coisa que eu pensei foi “ele não vai conseguir compor”. Depois ele até deu uma entrevista falando sobre isso, que não é possível permitir que uma canção chegue quando se tem compromissos, pessoas te esperando. A canção fica ali, martelando, até que ela nasça.

 

E qual é a sensação quando uma canção nasce?

Quando ela nasce eu sinto que a música não é mais minha. Mesmo que ela não seja gravada, a minha sensação é de que ela está no mundo. Por isso a minha dificuldade de ficar olhando para trás. Eu sempre prefiro essa sensação da canção nova, de ser tomada por ela. E depois que a música surge, ela vai tomando o caminho dela: as pessoas gostam mais ou gostam menos, ela vai para o rádio ou é um fracasso…

 

Foto: Leo Aversa - Crédito obrigatório.

 

Além da poesia, que é bem próxima, seu trabalho também se relaciona com outras artes, como cinema (“Esquadros”) e artes plásticas (“Parangolé Pamplona”). O mundo das artes sempre te inspirou como artista?

Muito. E eu não vejo essa divisão das artes; acredito que seja uma coisa da minha geração, de não ver essa divisão tão territorial entre as linguagens. Acho que tudo tem um pouco de tudo. Eu sou referenciada pelas artes e elas acabam aparecendo mais ou menos explicitamente nas músicas. São coisas que alimentam o meu trabalho. Falando especificamente de “Parangolé Pamplona”, eu fiquei encantada quando a Lygia Pape me explicou essa obra do Helio Oiticica. O parangolé é uma obra que você mesmo faz, então tira a obra do museu. Eu fiquei louca com isso e precisava fazer uma canção, mas não foi fácil. Depois eu cheguei até a ir para a Alemanha falar sobre essa obra do Oiticica, mas demorei muito para encontrar o jeito que ela seria, o ritmo que ela teria. Já “Cariocas” foi uma canção que veio inteira, de uma vez: eu peguei o violão, sem pensar antes “ah, vou compor uma música”. Comecei simplesmente a tocar e ela saiu sem eu ter feito nenhum plano.

 

Na música seu trabalho mais recente foi Loucura, cantando Lupicínio Rodrigues. Ele já é uma referência no seu trabalho há anos, certo? Gostaria que você comentasse a relação da sua produção musical com a obra dele.

Quando eu nasci todo mundo já cantava Lupicínio em Porto Alegre. Eu costumo comparar com (Dorival) Cayimmi: não parece que o Caymmi começou, parece que ele sempre existiu, e é assim que sinto com o Lupicínio. Ao longo dos anos eu fui entendendo minha relação com o Lupicínio Rodrigues justamente por isso, porque eu não tive um impacto como eu tive com outros compositores, aquele momento “nossa! O que é isso?”, porque ele sempre esteve ali, tocando na rádio. Eu demorei para entender a influência dele no meu trabalho. Comecei a ter noção disso quando comecei meu projeto “O Micróbio do Samba”, que é um termo dele; depois disso, recebi um convite da Universidade Federal do Rio Grande do Sul que, para comemorar seus 80 anos, convidaram artistas gaúchos para falar de outros artistas gaúchos, e eu fiquei com o Lupicínio. Foi muito legal de fazer. Ele fala de coisas do humano, é quase um Shakespeare, mas com um olhar bastante gaúcho. Aquela música “Cevando O Amargo”, que é sobre dois homens tomando um chimarrão, tem muito a ver com a essência de quem é do Sul, que é a minha essência e sempre será.

 

O que permanece o mesmo na Adriana do começo da carreira, lá em Porto Alegre, para a Adriana de hoje?

O que permanece é essa vontade de fazer sempre algo que eu não fiz. Por exemplo, eu não gosto de repetir a forma de fazer um disco, que são muitas e únicas, assim como cada canção que compõe o próprio disco. Não me baseio em “ah, isso deu certo, vou fazer de novo”; eu sempre quero algo diferente. Tenho a mesma motivação que sempre tive.

 

E o que mudou?

Acho que a quantidade de coisas que me influenciaram, a quantidade de pessoas que eu conheci… Mudei no sentido de evoluir, adquirir experiência é uma coisa muito legal. No início da minha carreira eu passei por tanta coisa. Até barata no palco teve…(risos)

 

Barata no palco? Como assim?

Isso foi em Porto Alegre. O espaço onde eu fiz o show era muito quente, era verão, e entrou uma barata voadora pela janela, que pousou no meu braço. E eu fui até o final da canção com a barata grudada no meu braço. É uma coisa que não aconteceria se eu não estivesse no palco; se fosse em outro lugar, eu acho que reagiria à barata (risos), mas para mim o mais importante é estar presente ali, aconteça o que acontecer. Mas é legal passar por essas dificuldades, essas coisas, porque te dá mais serenidade.

 

Além de livro e música, você também desenvolveu um importante trabalho infantil como Adriana Partimpim. Pretende retomar o projeto?

Eu não encararia como retomar, porque a minha ideia desde o começo sempre foi fazer uma discografia paralela. Eu não pensava em fazer shows no começo. Quando eu tivesse disponibilidade, repertório e tempo faria mais um disco Partimpim. Para mim existe a artista, o heterônimo Adriana Partimpim, que está lá, fazendo as coisas dela. De vez em quando ela vai fazer um projeto novo…

 

Quais são seus próximos projetos, na música, na literatura e em outras artes?

Estou trabalhando agora em outro livro, mas que não tem a ver comigo como produtora. É uma antologia de poesia contemporânea, dos poetas que foram influenciados por Arnaldo Antunes, pelo Eucanaã… Uma galera nova e muito interessante. Isso tem a ver comigo por ser uma leitora de poesia: tenho descoberto poetas novos e tenho gostado. Então fiquei com vontade de fazer um recorte. Esse livro deve sair em novembro.

 

Como você vê o atual cenário da poesia brasileira?

Os poetas estão produzindo muito: você vê revistas eletrônicas, blogs, diversas formas de se publicar poesia. Tem poesias que não são feitas com versos, são instalações… Os poetas estão trabalhando e é uma coisa muito legal. Existe uma certa acomodação quando se diz que não existem novos poetas ou novos compositores; a poesia brasileira vai muito bem. O nível da nossa poesia é muito alto, nosso cânone é espetacular, e isso eleva o nível de qualquer poeta que está começando, porque ele sabe que a parada é dura. É bacana essa coisa da internet, as pessoas estão escrevendo muito e divulgando seu trabalho. Isso inclusive influencia o mercado editorial estar mais aberto à poesia, o que é muito legal.

 

Entrevista: Carolina Porne