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Entrevista

“Mata Hari foi uma das primeiras feministas da história”

Paulo Coelho fala com exclusividade à #UniversoFnac sobre seu novo livro, ‘A Espiã’, e igualdade de gêneros, na literatura e fora dela

Entrevista

“Mata Hari foi uma das primeiras feministas da história”

jenniffer.hoche • 09 de dezembro de 2016 • 14h38

Como foi o processo de concepção de A Espiã? Como surgiu a primeira ideia, quanto tempo levou para finalizar o livro?

Mata Hari sempre foi um fascínio para a minha geração. Um dia estava falando com o meu advogado e ele me contou que houve um erro de julgamento, e eu não sabia. Eu achava que ela era realmente culpada. Então eu comecei a pesquisar e entrar muito a fundo na vida dela. E me deu uma imensa vontade de escrever uma carta como se fosse ela, porque a carta te coloca um pouco distante do seu próprio personagem, o que significa que, se eu escrevo uma carta para contar o que está acontecendo aqui, eu vou ter que me afastar. Isso permitiu que Marta Hari falasse de sua história, sem que eu me envolvesse diretamente com a sua própria história.

 

Livro-A-Espia-Paulo-CoelhoMata Hari é considerada uma das primeiras feministas da história. Em tempos de empoderamento feminino, A Espiã ganha ainda mais importância. No mundo da literatura, você acredita que existe igualdade entre homens e mulheres?

A Mata Hari foi uma das primeiras feministas da história, é verdade. Mas, ao mesmo tempo, é uma pessoa muito mais complexa que isso. Ela foi uma pessoa que fez valer a vontade dela em um momento de poder masculino. Mas eu não acredito que no mundo da literatura e/ou no mundo real exista, ainda, essa igualdade de sexos. Eu acho que o homem ainda manda, assim como mandava na época da Mata Hari ou na época anterior a Mata Hari. Até mesmo na Inglaterra, onde a rainha é a rainha, quem continua mandando é o homem. Com exceção de Margaret Thatcher.

 

Você é um autor brasileiro reconhecido internacionalmente. O que você acredita que seja o grande diferencial da literatura brasileira perante o mundo?

O diferencial da literatura brasileira é inexistente, para ser sincero. O que aconteceu foi que a literatura brasileira quis imitar a literatura europeia e acabou se perdendo. O último escritor verdadeiramente brasileiro que eu me lembro, e que teve projeção no mundo inteiro, foi o Jorge Amado. Uma pessoa maravilhosa, a quem eu sou extremamente grato. Óbvio que existem os regionalismos e as pessoas que escrevem sobre regionalismo, mas eles escrevem de uma maneira que ninguém entende. Então, na verdade não se pode pensar em uma literatura brasileira e nem em uma literatura internacional. A literatura é a literatura, é a alma da pessoa e é isso que conta. A alma do chinês e a alma do brasileiro são muito parecidas. Então vamos tirar a ideia do diferencial da literatura brasileira e ver as coisas que a literatura possui, que é o momento que você escreve e está falando de alma com alma.

 

Como é a sua rotina de escritor? Você escreve todos os dias?

Eu escrevo uma vez a cada dois anos. Antigamente eu escrevia muito no meu blog. Hoje em dia nem tanto. Eu mantenho o blog, pois sei que é a única coisa que tenho. Eu não posso contar para sempre com o Facebook e essas coisas. Mas eu escrevo a cada dois anos e de resto eu ando, eu medito e levo a vida ao lado da minha mulher. É isso a minha vida. Quando alguma coisa me provoca eu sento e escrevo.

 

Que conselho você daria para alguém que quer escrever um livro?

Quando eu escrevi O Alquimista – livro que me abriu as portas para todo o mundo e continua na lista do The New York Times como os mais vendidos oito anos depois – eu sentei e escrevi, achando que ninguém teria o menor interesse, porque era uma parábola, baseada em uma história universal. Mas eu tinha vontade de escrever, era fundamental para a minha vida. Eu me lembro de que mesma época eu fui passar 40 dias no deserto Mojave, e o meu primeiro editor tinha recusado o livro. Eu disse sinto muito! E vou lutar até o final por esse livro. Então eu acredito que alguém que quer escrever um livro primeiro deve escrever, sem pensar em dinheiro ou em publicação, não pense em nada! Escreva por que tem necessidade, e depois lute pelo aquilo que fez. Só essas duas coisas.

Por Carolina Porne