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Entrevista

Quadrinho ao Quadrado

Gêmeos desafiam novos artistas em concurso cultural

Entrevista

Quadrinho ao Quadrado

jenniffer.hoche • 05 de abril de 2016 • 14h21

Fábio Moon e Gabriel Bá são irmãos gêmeos. São também os quadrinistas brasileiros mais reconhecidos da atualidade, com histórias publicadas no Brasil, EUA, França, Espanha e Itália.

Há mais de dez anos dedicando-se aos traços e às boas histórias, eles começaram profissionalmente com o fanzine 10pãezinhos. Fizeram parte de algumas antologias, lançaram trabalhos autorais, realizaram projetos publicitários e adaptações.‘O Alienista’, adaptação da clássica novela de Machado de Assis, ganhou o Prêmio Jabuti de “Melhor Livro Didático e Paradidático de Ensino Fundamental ou Médio” e também foi selecionado, junto com outro álbum da dupla, Meu coração, não sei porquê,  para a lista do Programa Nacional Biblioteca na Escola (PNBE) 2009.

Nessa mesma época, os irmãos levaram alguns prêmios no Eisner Award , o principal dos quadrinhos , como Melhor Antologia, Melhor Série Limitada (para Gabriel Bá, por The Umbrella Academy, junto com Gerard Way) e Melhor Comic Digital (para Fábio Moon, pelo trabalho em Sugarshock, em parceria com Joss Whedon).

Colaboraram também com uma tira na Folha de S. Paulo, chamada ‘Quase Nada’, publicada aos sábados. Lançaram uma série chamada Daytripper, que os premiou com o americano Harvey Awards – Best Single Issue or Story, em 2011 (EUA/ Fábio Moon and Gabriel Bá ), o inglês Eagle Awards e o francês Les Utopiales, além de colecionarem premiações no brasileiro HQ Mix nos últimos anos em várias categorias.

Em um bate-papo realizado durante uma manhã no estúdio da dupla, eles falam sobre como começaram, desafios em criar uma boa história, as fases de arrebentação do processo criativo, o uso da tecnologia como facilitadora da produção e dão dicas de como se tornar um profissional na área dos quadrinhos.

Pra fã!

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Dicas do Moon e do Bá

– Desenhe tudo aquilo que tem vontade, mas desenhe também o que você não gosta de desenhar. O maior desafio está aí;

– Mostre sua arte. Peça a opinião de um amigo, compartilhe o que fez com as pessoas, ouça o que elas têm a dizer sobre seus desenhos;

– Realize projetos. Se tiver que criar um fanzine, por exemplo, você vai precisar pensar numa capa, contracapa e no público que vai consumir sua publicação. Pra viver de quadrinhos é preciso entender todo o processo de criação, do início ao fim;

– Experimente linguagens. Mesmo que o seu objetivo seja ilustrar para quadrinhos, experimente criar para a publicidade, por exemplo;

– Tenha motivos para suas escolhas. Um desenho pode ter infinitos detalhes, mas você precisa saber o que o motivou a escolher cada um deles;

– Descubra o seu estilo. Tente perceber qual o estilo dos seus traços e procure se aperfeiçoar nele;

– Faça e refaça. Ter a possibilidade de acertar, de corrigir e aprimorar seus desenhos torna você experiente e seguro para atuar profissionalmente;

– Ler gibis, livros e assistir a filmes, por exemplo, são ótimas maneiras para encontrar inspiração para criar boas histórias;

– Atualize-se. Busque notícias e informações sobre as novidades a respeito do seu trabalho;

– Entenda suas limitações e treine-as. Não basta ter uma boa ideia sobre uma história se você não consegue usar as mãos para coloca-la no papel;

– Use a tecnologia a seu favor. Aproveite que ficou mais fácil fazer e refazer um desenho para criar e errar muito;

– Tenha paciência. Lembre-se de que a velocidade que você leva para consumir um quadrinho não é a mesma que leva para produzir.

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<<< Leia o bate-papo completo com Fábio Moon e Gabriel Bá >>>

Vocês criam coisas juntos desde a infância?
Fábio Moon: Sim. Como nós somos gêmeos, estávamos sempre juntos desenhando. Liamos as mesmas coisas. Mostrávamos um desenho ao outro o tempo todo. Toda essa parte criativa, de imaginar coisas, brincadeiras… sempre fizemos isso juntos. Quando decidimos seguir o caminho dos Quadrinhos, não pensamos em fazer algo juntos, nem em trabalhar sobre a mesma coisa. Simplesmente sabíamos que iríamos fazer algo juntos de alguma forma porque a gente sempre fez assim. Na época o legal de criar alguma coisa era criar e mostrar. Criar e copiar. Criar e usar em alguma coisa com o outro. Não era só criar. Uma criança que cresce sozinha passa tempo ali criando, imaginando toda uma história dentro da cabeça dela. A gente não. A gente fazia e mostrava um para o outro. E aí um fazia o que o outro estava fazendo. Um lia um gibi, o outro lia outro, mas depois trocava. E é assim até hoje, mesmo que os projetos sejam individuais. Se ele está trabalhando em um determinado desenho, sempre dou uma olhada em algumas páginas. Dou minha opinião e ele vem me perguntar alguma coisa,. E vice-versa. Ah, e a gente trabalha no mesmo lugar!

Quando vocês perceberam o talento para os Quadrinhos?

FM: Talento? Talento é uma coisa complicada (risos). Gosto, talvez. Percebemos que nos interessávamos mais por quadrinhos lá pelos 12, 13 anos. Era um interesse por contar histórias, mais do que aquele só por desenhos. Percebemos que as histórias que líamos também tinham grande impacto no leitor. E percebemos isso nos filmes também. Começamos a gostar muito de histórias e entender a identificação das pessoas com elas. A criança gostava de histórias de crianças. Quando ainda pequenos líamos Capitães de Areia, por exemplo, que se passava em Salvador, e nos imaginávamos parte daquela gangue do Pedro Bala. Líamos histórias do Laerte, que se passavam em São Paulo, e reconhecíamos os postes, o fio do poste misturando com as árvores e a calçada quebrada do bairro da Vila Madalena – porque ele morava no bairro na época e a gente também – e a gente reconhecia o mundo e pensava: ‘nossa, essas histórias do Laerte podem acontecer com a gente’. Assim fomos nos encantando com as histórias. Mas agora, talento… (risos)

Gabriel Bá: Talento é aquilo que a sua mãe diz que você tem (risos). Leva algum tempo pra você perceber qual é o seu estilo no desenho. Depois você precisa passar por uma fase ‘de arrebentação’. Precisa nadar, nadar e nada, dar muitas braçadas, desenhar muito, pra perder vícios que adquiriu como fã de desenhos pra se tornar um desenhista, por exemplo. Talvez depois dessa fase você consiga perceber melhor o seu estilo e se você tem talento ou não.

Pode falar um pouco mais da dificuldade dessa fase ‘de arrebentação’ dentro do processo criativo?

FM: Existem duas coisas que dificultam a produção: uma é que você acredita que sua cabeça possa qualquer coisa e que, teoricamente, sua mão também possa qualquer coisa. Mas você precisa treinar a mão. Existe essa frustração do ‘posso imaginar qualquer coisa, mas não consigo colocar no papel’. Essa é a primeira onda a ultrapassar na braçada. A outra dificuldade é aceitar que milhões de ideias vão surgir após a leitura de um gibi, que você leva cinco minutos pra terminar, mas que aquelas ideias vão demorar 2 ou 3 meses pra estarem no papel. Aceitar que, o que as pessoas consomem tão rápido demora mesmo muito tempo pra se fazer. Entender o tempo do seu processo criativo. Eu penso numa velocidade, mas desenho em outra. Essa é a principal barreira pra quem desenha. O tempo que levamos para ler um gibi ou algo que gosta é muito rápido, muito fluído, mas o tempo pra fazer parece ser interminável.

Você dedicaram muito tempo de estudo para se aperfeiçoar na área?

FM: Hoje em dia existem até escolas, mas quadrinho é um negócio que se aprender na prática. No erro e no acerto – muito mais no erro do que no acerto. Você precisa produzir o tempo todo pra ir ultrapassando essas barreiras, pra ir aprendendo, vendo o que funciona, testando materiais diferentes. Aprendendo a contar uma história, a usar a linguagem. Sem produzir você não aprende nada. Se tem uma matéria na escola em que você só aprende se fizer a lição de casa, é a dos quadrinhos. Não adianta ir, olhar a aula, voltar pra casa e não fazer nada. Pode até ler livros, teorias de como se criar histórias, de como fazer quadrinhos, mas se você não está produzindo não aprende.

Quando vocês começaram de fato a produzir?

FM: Desde o colegial produzíamos fanzines e revistas. O processo é de contar uma história e terminá-la, contar até duas, montar uma revista e ter, finalmente, algo pronto. Pra isso você ainda precisou fazer uma capa e uma contracapa. É muito mais que a diversão em desenhar. Você precisa desse objetivo. Isso traz um ritmo de produção para o seu trabalho.

Quais foram os maiores desafios desse início?

Nós tínhamos esse fanzine que era semanal. Aí eram dois desafios. O primeiro era produzir novas historinhas curtas toda semana. O segundo era vender aquelas histórias. Dessa forma aprendíamos a importância de produzir sempre e a de ir atrás das pessoas, de mostrar o trabalho, de falar o motivo de gostarmos daquilo. E de ouvir também.

E a remuneração?

Mesmo quando trabalhamos com ilustração para editoriais, buscamos intercalar esse tempo com o da criação das histórias. O trabalho que paga com o que não paga ainda. Perdíamos até um pouco do ritmo com as histórias, mas ao mesmo tempo estávamos fazendo ilustração de vários tipos, como por exemplo pra revista infantil, como a Recreio, pra publicidade, pra revista de adulto, pra jornal. Éramos desafiados a estilos diferentes.

Quando vocês começaram a ganhar dinheiro com quadrinhos?

Gabriel Bá: Chegou um momento em que começamos a publicar nos Estados Unidos, trabalhando em uma série mensal que, em um intervalo de 30 dias, apresentava um novo capítulo de 22 páginas. Foi um outro ‘choque’ pra gente: produzir 22 páginas em um mês! Foi a partir desse momento que a nossa produção deu um salto. Além de produzir muito mais, ainda trabalhávamos em cima do roteiro de outras pessoas. Quando você trabalha a sua própria história, você dialoga com tudo o que está dentro da sua própria cabeça. Você trabalha na sua zona de conforto. Desenhar a história dos outros… Puxa, eles pensaram naquilo, eles criaram alguma coisa. O seu trabalho como desenhista é entender aquilo para transformar em imagem. Isso envolve um outro tipo de raciocínio que também precisa ser desenvolvido para que você se torne um profissional.

FM: Ainda sobre o processo de aprendizado, ele é continuo. Nunca termina. Se você quer contar histórias precisa ‘querer’ descobrir coisas novas o tempo todo. Estar atento às novas formas de comunicação, ao avanço da linguagem, das técnicas. É um constante ‘estar disposto a aprender e a se desenvolver’. Um processo que não tem fim.

Sobre avanço das técnicas, você pensa na tecnologia também?

FM: Sempre desenhamos em mesas e tablets, mas só agora passamos a incorporar essas ferramentas ao desenho de uma maneira mais ativa. Por exemplo, nos quadrinhos tem muita gente que usa fonte de computador para os textos, por conta da uniformidade. Mas chegou uma hora em que resolvemos fazer letra a mão exatamente pra tirar essa uniformidade do computador. A letra a mão ganha uniformidade também com a prática, mas mantém nosso estilo e combina com nosso desenho. Seja uma coisa mais tecnológica, como incorporar uma Wacom ao trabalho, seja uma coisa mais analógica, como fazer a letra a mão, precisamos testar e aprender coisas novas para o trabalho continuar evoluindo.

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