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Entrevista

Remontada

Liniker e os Caramelows lacram em disco de estreia.

Entrevista

Remontada

Matheus Negrão • 12 de maio de 2017 • 19h41

Depois de percorrerem o Brasil em mais de 80 shows só com um EP, Liniker e os Caramelows lançam o primeiro disco de estúdio da banda, o “Remonta”, um projeto que contou com uma ‘vaquinha virtual’, atingindo 150% da meta, sendo totalmente financiado pelos fãs. Esse é também o primeiro álbum da araraquarense Liniker Barros, que aos 21 anos desponta como um dos grandes fenômenos da música brasileira e que, ao lado de artistas como Linn da Quebrada e As Bahias e a Cozinha Mineira, coloca as questões do gênero sob as luzes do palco pra todo mundo ver, tornando-se uma das maiores referências na representatividade trans.

O que fez você perceber que precisava desconstruir tudo o que tinha construído sobre gênero e passou a ser a Liniker? Pode compartilhar desse processo de entendimento, aceitação e transformação?

LINIKER: Acho que nunca foi nada pensado, mas, sim, sentido. O meu nome foi inspirado no nome de jogador de futebol inglês. Meu tio achava que eu jogaria bem se me chamasse assim. Existe uma construção e uma expectativa das pessoas como se tudo fosse controlado. Eu gosto do meu nome, mas estou longe de jogar bola, sou cantora, estou na arte ocupando outro espaço. Quando eu era mais nova, criança mesmo, gostava de brincar de Pocahontas. Colocava a blusa na cabeça e brincava como se fosse um cabelo comprido. O que é brincadeira de menino? O que é brincadeira de menina? Dividir o mundo dessa maneira é muito triste e simples. Não somos seres simples, somos complexos. Quando saí de Araraquara e fui morar em Santo André, onde estudei na Escola Livre de Teatro, comecei a me redescobrir. Eu me olhava no espelho e não sentia o que era realmente. Gostava de usar saia, maquiagem. Foi um processo. Tinha tio que trazia uma pilha de “roupa de homem” e dizia que era aquilo que eu devia usar. A minha mãe foi bastante importante nesse processo. Sempre disse que eu deveria usar o que quisesse e o que me fizesse sentir bem. Ela foi quem me deu o meu primeiro rímel. Abri a bolsa e estava lá de presente. Sou uma mulher negra, uma mulher trans.

Como a sua música se conecta a tudo isso? 

L: A música é a minha profissão, sou cantora. As mulheres trans passam por um processo de invisibilidade muito grande, como se elas não fizessem parte da sociedade. Quando a minha arte me permite ocupar espaços de visibilidade, como um palco ou um programa de TV, gera uma representatividade importante. Mas não pode parar ali. Temos que ocupar lugares, ruas, empregos. A mulher trans não pode se relacionada à marginalidade ou prostituição, tem de ser respeitada e ocupar outros espaços também. Pode ser secretária, médica, dentista ou o que ela quiser.

O que é ser a maior referência da nova geração MPB Trans?

L: Esse foi um nome que as pessoas criaram pra criar uma cena, que é superimportante, mas também é muito diversa. Não gosto quando me colocam como a principal referência. Cada banda e artista tem a sua importância, o seu trabalho, os​ seu​s momentos e a sua militância. Quando propõem que alguém é maior ou menor, criam uma rivalidade que não é verdadeira. Sempre nos encontramos em festivais, shows e, inclusive, saímos juntas. A Linn da Quebrada e As Bahias e a Cozinha Mineira, por exemplo, têm trabalhos fortíssimos e têm uma importância enorme também. Cada uma de nós, tocamos estilos musicais diferentes e nos apoiamos sempre.

O que você quer ‘remontar’ pessoalmente e profissionalmente com seu mais novo disco? 

L: “Remonta” foi o primeiro disco da nossa banda. Isso é algo que gosto de frisar: não sou uma cantora solo ou uma cantora que tem uma banda. Liniker e os Caramelows é uma coisa só. O disco foi uma realização pessoal e profissional. Não sou uma personagem, o que sou no palco, sou na vida também. E o disco fala muito de mim, de um momento meu. As letras são cartas de amor que escrevi pros boys, mas nunca entreguei. Comecei a escrever essas cartas com uns 16 anos. Elas ganharam o mundo em formato de música.

Liniker_Livraria cultura

Você mais uma vez foge dos estereótipos quando prefere continuar independente a seguir com uma gravadora. Por que?

L: Quando aparecemos, recebemos várias propostas de gravadoras. Avaliamos uma a uma, mas a banda decidiu continuar como independente por vários motivos. O EP “Cru” teve uma repercussão muito grande. Claro que queríamos e esperávamos algum retorno, mas não da maneira que foi: milhões de visualizações em poucos dias. O nosso processo foi tão verdadeiro que preferimos continuar como estava. Claro que recebemos apoio para o disco. Fizemos um financiamento coletivo no Catarse, por exemplo. Nossos fãs nos ajudaram muito. Fizeram “Remonta” se tornar uma realidade.

Confira o sucesso Remonta!

Conversamos também com Rafael Barros, baixista da Liniker e os Caramelows, que falou um pouco mais sobre o novo disco ‘Remonta’.

Qual a sensação de entregar um disco totalmente financiado por uma ‘vaquinha virtual’ de fãs e apaixonados por vocês? 

Rafael Barone: São muitas sensações misturadas, mas pra mim a que mais fica evidente é a liberdade, primeiro que por conta desse tipo de financiamento não precisamos nos adaptar a lógicas de mercado impostas por nenhum grande financiador, mas principalmente liberdade por saber que nosso público existe e confia em nós a ponto de investir em um álbum que ainda não ouviu mas sabe que vai adorar!

Algumas músicas do EP ‘Cru’ foram ‘remontadas’, ganhado novos formatos no novo disco. Como esse processo aconteceu?  

RB: Desde que começamos a pensar a produção do Remonta, sabíamos que as 3 músicas entrariam e que não seriam os mesmos arranjos do EP Cru. Quando sentamos com o produtor musical do álbum, Márcio Arantes, expressamos essa vontade e juntos fomos desenhando quais influencias e como soariam essas músicas. No final temos uma outra versão de Zero, mais radiofônica, Louise du Brésil mudou bastante a forma como ela soa e Caeu é a mais parecida com a versão original.

A introdução na primeira faixa do novo disco ‘Remonta’ gera uma ansiedade no que ‘está por vir’. Era exatamente o que vocês gostariam de provocar?  

RB: A ideia é essa mesmo. Quando a Liniker nos apresentou sua ideia de Remonta e começamos a trabalhar no álbum, tínhamos claro que, mais que uma seleção de canções, o álbum deveria soar como uma obra fechada. A canção Remonta dentro dessa narrativa, seria a última peça do quebra-cabeças, mas ela é posta no começo do álbum pq a gente não gosta de narrativa linear mesmo. rs. A gente tinha também uma proposta inicial de encerrar o álbum com uma bônus track que revisitaria as linhas melódicas da música Remonta de forma desconstruída, mas depois que gravamos Ralador e sentimos toda aquela visceralidade, não tivemos coragem de pôr mais nada depois.

Na faixa ‘Prendedor de Varal’, vocês citam um trecho de uma música do Tim Maia, a ‘Chocolate’. Qual a relação de vocês com o cantor e compositor? 

RB: A ligação com o Tim Maia, do ponto de vista musical, é por ser uma das grandes referências da Música Preta Brasileira. Ele traduziu o funk e o soul dentro da música brasileira de uma forma muito natural e intensa!

 

Por Jenniffer Hoche