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Entrevista

Scholastique Mukasonga: autora presente na FLIP é a voz da África

Se o genocídio de Ruanda a fez uma escritora, as memórias não poderiam sumir junto às pessoas.

Entrevista

Scholastique Mukasonga: autora presente na FLIP é a voz da África

Anna Gobatto • 28 de julho de 2017 • 12h26

Se o genocídio de Ruanda a fez uma escritora, as memórias não poderiam sumir junto às pessoas. Convidada para o décimo quinto aniversário da Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP), um dos maiores eventos de Literatura do Brasil, a autora ainda retoma suas memórias, mesmo após anos da perda de parte de sua população. Guerreira, ativista e um exemplo de superação, Scholastique Mukasonga usa as palavras para lutar contra a dor do massacre e tem seu nome como referencia quando o assunto é o extermínio cultural.

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Entenda a história por trás do massacre

Representando distintas culturas de Ruanda, país africano localizado ao centro do continente, os hutus e os tutsi são diferentes “forças” que se distinguem entre si. Apesar da maior população hutus, os tutsis dominaram o país durante muitos anos, formando uma monarquia que, em 1959, foi derrubada. Com isso, grande parte tutsi fugiu para países vizinhos e, um grupo de exilados formou uma liga rebelde denominada RPF, cuja em 1990, invadiu Ruanda estabelecendo um acordo de paz 3 anos depois.
Entretanto, ao completar um ano de tratado, o avião que carregava os dois então presidentes estabelecidos no país, ambos hutus, foi destruído. Foi aí que, alguns extremistas que representavam maior parte da força culparam a RPF e logo começaram a caça e o assassinato aos tutsis. Em cerca de 100 dias, já havia 800 mil pessoas mortas por extremistas étnicos hutus e, a comunidade tutsi foi dizimada como adversários políticos, não levando consideração à origem étnica. Listas de adversários ao governo foram entregues a milícia, formando um sistema meticuloso. Alguns maridos até mataram suas esposas tutsis, alegando que seriam mortos caso recusassem e, muitas mulheres tutsis também foram levadas por tropas e mantidas como escravas sexuais.

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Guerreira, ativista e escritora: conheça uma das sobreviventes do genocídio

Nascida em 1956, Scholastike Mukasonga foi mais uma criança ruandesa que, todos os dias, conviveu com a violência, com o preconceito e com a discriminação provinda dos conflitos étnicos em seu país. Oriunda de uma família de extrema pobreza, Mukasonga foi moradora das áreas mais periféricas e carentes de Ruanda.
Forçada a abandonar a escola de serviço social e a família, cruzou a pé a fronteira com o país vizinho, Burundi. Em 1992, dois anos antes do massacre, Scholastique mudou-se para a França, onde estabeleceu um novo começo. Ao ver imagens do genocídio que vitimara enorme parte de sua população, se deu conta de que deveria escrever, não deixando morrer a memória de suas raízes étnicas.
A autora levou cerca de dez anos para retornar a seu país de origem após a barbárie e, atualmente, acompanha de perto a história do único país com maior parte feminina no Parlamento, Ruanda. No país, as mulheres sempre foram mais reconhecidas e valorizadas e, após o genocídio, tal papel se reforçou devido à morte de maior parte da população masculina.
Publicou, em 2006, sua primeira obra: Inyenzi ou les Cafards, seguida de ‘La Femme aux pieds nus’, em 2008, fazendo parte de sua série de livros autobiográficos com forte ligação com o genocídio ocorrente em seu país. Em 2010, houve a publicação de seu primeiro romance, Nossa Senhora do Nilo, atualmente já traduzido para a língua portuguesa e, através da FLIP, marcando a estreia da autora no mercado brasileiro. A obra foi vencedora do Ahmadou-Kourouma e do Renaudot, em 2012, do France Ô, em 2013, e do French Voices Award, em 2014 e, fez com que Scholastique se tornasse um dos nomes africanos mais premiados e homenageados da atualidade. O romance se passa em Ruanda, num colégio de Ensino Médio para jovens meninas, situado no cume Congo-Nilo a 2500 metros de altitude, perto das fontes do grande rio egípcio, onde garotas de origem Tutsi são limitadas a 10% do corpo de alunos. Além dessa obra, o romance-memorialista ‘La femme aux pieds nus’ (A Mulher de Pés Descalços), também foi traduzido para nossa língua. A história trata-se do relacionamento da autora com sua mãe, que morreu com os pés descalços – contrariando a tradição local – pela ausência da filha.

Na língua francesa, a autora já possui 13 obras publicadas e hoje, duas delas já foram traduzidas para o português. Em homenagem aos seus 15 anos, a FLIP traz ao nosso país um pouco mais da incrível história de uma das vozes mais importantes da África, enchendo nossos olhos de lágrimas e nos deixando em choque a cada novo parágrafo.

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Entrevista

Você consegue relacionar o genocídio sofrido em Ruanda com o preconceito quanto à cor, gênero, raça etc, existente nos demais países?

Resposta:  O racismo nasce sempre da recusa das diferenças, mas no Ruanda, essas diferenças foram criadas e acentuadas pelos colonizadores e missionários.
De fato, os três grupos de que se compõe o povo ruandês, tutsi, hutu e twa, não são etnias, todos os três falam a mesma lingua, o kinyardwanda, moram uns ao lado dos outros (não há regiões hutus nem tutsi), compartilham a mesma cultura.

A maior infelicidade que aconteceu aos ruandeses foi a de morar na nascente do rio Nilo, esse espaço mítico que os europeus buscavam desde a antiguidade. No final do século XIX, o Ruanda era a última mancha branca no mapa da África. Na nascente do rio Nilo, segundo a mitologia ocidental, buscavam-se seres fora do comum, oriundos das lendas. Os tutsi vão desempenhar esse papel no olhar dos colonizadores e dos missionários. A civilização ruandesa os fascina a tal ponto, que eles recusam olhar os tutsis como autóctones. Os tutsis não são “negros” incapazes de atingir um tal requinte político e ritual. Inventa-se para eles, origens delirantes; Etiópia, Egito, Tibet. Essa ideologia racista será integrada pelos hutus no poder, que enxergarão os tutsis como invasores, estrangeiros e verdadeiros colonizadores, que se deve caçar e, finalmente, exterminar.

O que mudou em sua vida após a repercussão de suas obras?

Resposta: Esse sucesso, eu tomo como um reconhecimento do caráter humano daqueles que foram rebaixados a um nível de bichos nefastos, baratas, e aos quais se recusaram o direito mais elementar do homem: o de viver.

Como moradora da França, você já sofreu algum tipo de preconceito? Isso ainda ocorre atualmente?

Resposta: Há na França, como em outros lugares, atos de racismo cotidiano. Mas, não na região em que vivo. Eu trabalho junto à população, muitas vezes desfavorecida, como assistente social. A diferença da cor não conta neste caso. Eu sou assistente social. Eu não aprecio particularmente as observações feitas sobre o meu sotaque. Eu o considero meu, como uma marca da minha identidade. Isso me dá segurança e isso me lembra que eu nasci em outro lugar.

Acredita que, por maior parte da população dizimada ter sido masculina, o feminismo e a representação da mulher ganharam força em Ruanda? Por que?

Resposta: A mulher sempre teve um lugar preponderante na sociedade ruandesa tradicional, enquanto dona e guardiã do lar. De fato, logo após o genocídio, os homens, tendo sido massacrados prioritariamente (mulheres e crianças também não foram poupadas), as mulheres representavam 70% das sobreviventes tutsi. Elas tiveram então, de assumir tarefas tradicionalmente reservadas aos homens. Elas recolheram, tanto os órfãos cujos pais tutsis foram assassinados, como crianças abandonadas pelas famílias hutu em fuga.

As mulheres ocuparam um lugar eminente no processo de reconstrução do Ruanda. Elas são onipresentes em todas as instâncias do Ruanda: 64% dos assentos da Assembléia Nacional e alguns ministérios-chave, como o das Relações Exteriores, entre outros.

Manter a memória do genocídio viva é importante, mas falar e escrever sobre tudo isso a todo tempo é uma coisa confortável pra você?

Resposta: Enquanto sobrevivente, eu tinha por missão testemunhar pelos meus mortos. Quando, em 1973, fui expulsa da escola de Butare, escapando por um triz do linchamento pelos meus colegas hutu, meus pais decidiram que eu devia partir para o exílio. Eles pressentiam, talvez, quero acreditar, que eu seria a memória deles. Eu tinha 7 irmãos e irmãs, e por uma sorte excepcional, eu fazia parte da cota de 10% que era concedida aos tutsi para entrar no secundário. Eu tinha aprendido francês, e para os meus pais, isso equivalia a um passaporte internacional. Eu parti então para o exílio, com o francês como única bagagem.

A Alemanha também sofreu muito tendo sua população dizimada. Você acredita que por Ruanda ser um país africano, a visibilidade do problema tornou-se menor?

Resposta: Eu estava na França, naqueles meses de abril, maio, junho, de 1994. A palavra genocídio era tabu. Na televisão, só começaram a se interessar, realmente, por aquilo que acontecia no Ruanda, quando os atores do genocídio fugiram para Goma, no Congo. A cólera, a erupção do vulcão Nyiragongo, isso era espetacular para as televisões, mas os 1.000.000 de mortos no interior de Ruanda, não interessavam de maneira alguma às câmeras. A indiferença da opinião internacional foi compreendida pelos autores do genocídio como uma autorização para matar.

Atualmente, qual é o seu maior medo relacionado a seu país?

Resposta: Atores do genocídio e negacionistas se refugiaram em países estrangeiros onde eles vivem dias tranquilos sem terem que responder por seus crimes. Temo que alguns deles ainda estejam dispostos a “terminar o trabalho”.

Em meio a tanto caos provocado pelo genocídio, você acredita que algo bom possa ter surgido para seu país e também para sua formação pessoal?

Resposta: Eu sou profundamente otimista. Eu perdi toda a minha família em Nyamata, para onde tínhamos sido deportados, em 1960. Portanto, nunca senti nem ódio nem rancor. Eu sempre pensei no futuro dos meus filhos, que não devem viver o nosso passado. Tive a sorte que para mim o caminho da literatura se abriu no momento em que a loucura me espiava. Meu dever, enquanto escritora, é de participar, como eu puder, na reconstrução do Ruanda na unidade de todos. Que não exista mais nem tutsi, nem hutu, nem Twa. A nossa riqueza é uma língua comum, o kinyarwanda: e lá que se encontra nossa força.

Curiosidades: Mulheres africanas que fizeram historia

Nadine Gordimer, natural de Johanesburgo, é uma autora sul-africana de mais de 30 obras publicadas e suas crônicas se resumem à deterioração social durante o apartheid. Considerada uma das maiores vozes da África do Sul, Nadine recebeu vários prêmios como o Nobel de Literatura, em 1991.

Tsitsi Dangarembga é uma escritora natural de Rhondesia (Atual Zimbábue). Com apenas 25 anos de idade, ficou reconhecida por sua novela ‘Nervous Conditions’, vencedora do prêmio Commonwealth Foundation prizes, em 1989 e considerada uma das 12 melhoras novelas africanas já escritas na historia.

Candice Swanepoel é uma supermodelo sul-africana e atual Angel da Victoria’s Secret. Nascida em 1988, já foi capa de revistas como Vogue, Elle, e GQ, posando para marcas tais quais Dolce e Gabbana, Chanel, Versace, Dior, entre outras.

Wangari Muta Maathai é uma ativista política do Quênia e fundadora do movimento Cinturão Verde Pan-africano, um projeto que plantou mais de 30 milhões de árvores. Vencedora do Prêmio Nobel da Paz, em 2004, luta pela conservação florestal.

Leila Lopes, angolana de 31 anos, foi a Miss Universo 2011. A modelo é Embaixadora da Convenção das Nações Unidas para o Combate à Desertificação e visitou, em 2012, o estado do Ceará, conhecendo as regiões atingidas pela seca.

Yvonne Okoro, nascida em Gana, é uma atriz de grande referência para o país. Vencedora do ‘Ghana Movie Awards’, já atuou em mais de 15 filmes e séries, sendo o ultimo deles lançado em 2016.

Matéria por Luiz Otávio Crisóstomo.

02.08.2017
Evento: http://bit.ly/2vC40vI