Localização

Bem-vindo ao Universo Fnac! Para que sua experiência seja a melhor possível, defina sua localização:

Entrevista

Tendência de livros através do tempo

Um papo cabeça sobre tendência de livros com a diretora da Bienal do Livro, presidente do Sindicato de Livros e Editor da Intrínseca. Confira:

Entrevista

Tendência de livros através do tempo

jenniffer.hoche • 31 de agosto de 2017 • 09h29

De repente você começa a ver aquela mesma capa de livro nas prateleiras das livrarias, na casa do seu amigo, no balcão da cafeteria e no metrô. Aí você se dá conta de que está todo mundo lendo o mesmo título, menos você – e corre para encontrá-lo em busca de compreender tamanho fascínio das pessoas por aquela história. Alguns encontros de fãs, fóruns de discussões e plataformas para leitores depois, não há nem sinal desse livro por aí. Mas o que teria acontecido? Por que estamos vendo cada vez menos livros e temas estourarem e perdurarem nas prateleiras? Nós estamos lendo menos? Será que tem a ver com o uso da tecnologia? Para incitar o pensamento a respeito do assunto, conversamos com três especialistas da área: Lucas Telles – Editor de Aquisições Estrangeiras da Intrínseca, Marcos da Veiga Pereira – Presidente da SNEL (Sindicato Nacional de Livros) e Tatiana Zaccaro – Diretora da Bienal do Livro.

lucas

Como você enxerga o mercado de livros no Brasil atualmente?

Lucas Telles: O mercado de livros no Brasil é dinâmico, ainda com muito espaço para crescer e públicos a serem alcançados.

Marco Pereira: Eu enxergo o mercado de livros no Brasil vivendo um momento difícil. Tivemos dois anos de uma queda muito profunda, em 2015 e 2016, os dados que nós temos mostram algo em torno de 20% de faturamento real, o que é muito grande, tanto para editoras, quanto para livrarias, e vejo uma indústria que precisa se renovar, revalorizar o livro perante a sociedade, porque ao meu ver está perdendo espaço.

Existe uma mudança perceptível na leitura do público brasileiro no decorrer dos anos? O uso da tecnologia influencia nisso?

Lucas Telles: Acredito que as redes sociais tornaram-se ferramentas importantes para as editoras divulgarem suas publicações, ao mesmo tempo é uma forma muito interessante de compartilharmos o que estamos lendo. Qualquer um pode divulgar suas impressões nas redes, tornando coletiva uma experiência particular, estimulando assim o debate e a divulgação de títulos. Isso certamente impacta tanto nas experiência de leitura, ao possibilitar uma nova forma de troca da ideias, e dando mais visibilidade a obras que dificilmente tornariam-se conhecidas por outros meios.

Marco Pereira: A questão da leitura passa por uma conjuntura: educação, cultura e poder aquisitivo. Esses são os três pilares que dão suporte ao mercado do livro. O desejo de crescimento pessoal, se você pensar há dez anos, o que era mais forte em termo de gênero eram os livros de autoajuda e então tivemos uma migração dessa temática de livros para outros mais jovens e, logo em seguida, o fenômeno da série Crepúsculo, John Green, os youtubers. Há 10 anos estavam crescendo as mídias sociais, que são grandes competidores no tempo da leitura. O mercado acabou se beneficiando disso, mas por outro lado, virou um grande concorrente.

Me parece que nosso mercado é lento em termos de reação, quando por exemplo, chegam tempos de mudanças e crescimentos. Sinto que o livro não conseguiu acompanhar o problema de inflação que tivemos e isso gerou uma desvalorização muito grande e, não teve esse acompanhamento no crescimento de volume. A receita das livrarias e das editoras acabaram se reduzindo. Eu vejo que a questão do desemprego atingiu muito os livros, acho que nesse momento as pessoas param de ler livros, tendo em vista que a leitura infelizmente ainda não é considerada prioridade aqui no Brasil. Estamos ainda muito longe do que o mercado era em 2011, por exemplo.

marcos

Qual é a principal tendência de temas de livros para 2017?

Lucas Telles: O mercado brasileiro é tão diverso que fica difícil apontar uma única tendência. Uma das que podemos identificar há algum tempo são os livros voltados para o público jovem, que abordam assuntos delicados de forma direta e clara, sem menosprezar a capacidade de compreensão dos leitores. É o caso de John Green, presença contínua nas listas de mais vendidos com A Culpa é das Estrelas, cujo novo livro lançaremos em outubro. Outro exemplo é R. J. Palacio com Extraordinário, que foi adaptado para o cinema e tem estreia no Brasil prevista para novembro. Com o cenário político e econômico brasileiro em constante transformação, os leitores têm procurado obras que os ajudem a entender melhor o contexto atual. Autoras como Miram Leitão com seu A Verdade é Teimosa e Monica Baumgarten de Bolle em Como Matar a Borboleta-Azul são alguns exemplos dessa tendência. Jojo Moyes foi a autora que mais vendeu livros no Brasil em 2016 e continua no topo das listas esse ano. Autores como Josh Malerman com Caixa de Pássaros e seu lançamento mais recente, Piano Vermelho, falam com um público crescente de leitores em busca de histórias marcadas pelo suspense. E os livros interativos continuam com muita força, como podemos ver no caso de Uma Pergunta por Dia e os títulos de Keri Smith, que sempre voltam às listas de mais vendidos.

Marcos da Veiga Pereira: Para mim, 2017 está sendo um ano sem tendências. É curioso que a gente está no final de um semestre e temos um crescimento totalmente pulverizado, temos uma passada de Jojo Moyes, que dominou o primeiro semestre e que ainda está na lista, e ainda temos A Cabana voltando, então não temos uma tendência muito clara. Ano passado tivemos uma tendência muito forte de livros, que foi o caso dos youtubers. Você continua tendo estes atores aparecendo e acabam vendendo muito, mas nós não temos nada muito dominante. Nós temos um livro, em outubro, que é do Dan Brown e, vai ter o lançamento de John Green também.

Tatiana Zaccaro: A Bienal claramente será com foco no público adolescente, ainda um pouco com os influenciadores, mas focado em autores que escrevem mais para adolescentes.

frase

Quantas tendências de livros existem por ano? Tem alguma que mais se repete?

Lucas Telles: As tendências são variadas e retornam com novas roupagens, respondendo às necessidades de cada tempo. Um exemplo são os livros de autoajuda, que no passado foram tendência com fórmulas prontas e passos certeiros para o sucesso, e que hoje abordam o assunto de forma mais realista e dinâmica, deixando o leitor mais para criar e encontrar suas próprias soluções. Vemos isso em livros como Ted Talks, de Chris Anderson e Donaldson Garschagen e Sprint, de Jake Knapp e John Zeratsky.

Marco Pereira: Já foi muito mais comum ter tendências e fenômenos que durassem muito tempo, mas hoje isso fica cada vez mais difícil e esse período em que os livros ficam em alta é muito mais curto. É uma característica do mercado em geral. O Código da Vinci ficou 80 semanas entre os livros mais vendidos, nós temos um diferencial que é o livro A Cabana que agora está 177 semanas, mas atualmente 30 semanas já é considerado muito.

tatiana

As tendências acabam influenciando na Bienal? Como é feita a escolha dos autores?

Tatiana Zaccaro: A característica principal da Bienal do Livro é ser uma feira que funcione como um grande shopping center de livros, com grandes ofertas, aprendizados, uma grande troca cultural. É um lugar único para estar em contato

e comprar todos os tipos de livros no mesmo lugar. A programação cultural do evento também reflete isso de forma bem abrangente, por isso que as programações dentro da Bienal abraçam todas as temáticos dentro do universo literário, por exemplo, programação profissional, autoajuda, ficção, não-ficção, biografias, culinária. Tentamos fazer tudo que está em alta e em paralelo com as tendências do mercado.

Por isso trouxemos as novidades Arena #SemFiltro e o espaço Geek Quadrinhos, pois hoje temos editoras lançando selos exclusivos para leitores adolescentes, já que quem mais compra livros no país são eles, gêneros de fantasia, super-heróis, estão em alta. Estas duas novidades da Bienal são observações das novas tendências que vão surgindo no mercado, trazendo para a programação o que está acontecendo, mas também não deixando os clássicos de lado, como poesia, biografia, romance policial. A gente fala de tudo, mas sempre trazendo novidades.

Quem e o quê faz um livro virar tendência?

Lucas Telles: As editoras investem em obras de qualidade e na promoção dos livros para que eles encontrem seu público, mas a palavra final do que se tornará a próxima tendência é sempre dos leitores. São eles que se identificam com os temas abordados e recomendam a leitura para os amigos, sendo uma força determinante para estabelecer novos sucessos editoriais.

Marcos Pereira: A última grande tendência, ao meu ver, foi o livro de colorir, que foi algo realmente forte, curto, mas com uma intensidade brutal. Mas quem faz virar tendência é quem lê e quem acaba indicando de alguma forma.