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Entrevista

Um mundo melhor na batida do rap

Em clima de celebração, mas também de questionamento, Criolo relança seu disco Ainda É Tempo, de 2006. Em entrevista exclusiva para a #UniversoFnac, o rapper conta que o que o move é a esperança

Entrevista

Um mundo melhor na batida do rap

jenniffer.hoche • 29 de setembro de 2016 • 11h00

É o Teste

“O tempo encurtou, então devo me expressar/ Caneta e caderno, minhas armas descrevi, / Arujá no gol quadrado vai escreve aquilo ali.”

 

Criolo é um homem de poucas palavras, mas grandes versos. Quando se expressa é com potência total. A primeira faixa do disco foi uma das primeiras canções em que Criolo, na época ainda Criolo Doido, colocou sua voz. E o relançamento de Ainda É Tempo, 10 anos depois, é uma maneira de celebrar essa possibilidade de se expressar.

“Antes do disco veio a vontade de fazer uma apresentação, porque eu nunca tinha feito uma apresentação completa desse disco. Os backups das músicas se perderam”, relembra o artista. “Tudo nasceu da vontade de fazer um show para celebrar e aí uma coisa puxou a outra. O Daniel Ganjaman fez a direção musical e foi ele quem sugeriu que nós convidássemos novos produtores para contribuírem com o trabalho que já existia. Quando eu me dei conta já tinha muita gente envolvida de coração nesse projeto, muitas pessoas que já conheciam o disco há um tempão e, para a nossa surpresa, quando anunciamos que íamos fazer uma ou duas apresentações, muita gente se interessou em querer ver isso de perto e a gente acabou por fazer uma pequena tour e no meio desse processo veio a vontade de fazer um registro desse momento e assim nasceu o novo álbum. Mas ninguém imaginou que isso ia acontecer.”

 

Chuva Ácida

“Peixes mutantes invadindo o congresso/ Vomitando poluentes com o logotipo impresso”

 

Em sua nova versão, o rap ‘Chuva Ácida’ ganhou como introdução um trecho de entrevista com uma líder indígena após o desastre ambiental causado pela Samarco na região do Rio Doce. Olhando para os dias de hoje, a canção de 10 anos atrás ganha ares quase premonitórios.

As notícias e o próprio cotidiano são mais do que meras inspirações para Criolo; é seu estilo de vida. E é aí que nascem as canções. “Escuto muita rádio AM, rádios de notícias… Escuto músicas mais antigas e também novos sons que chegam até mim através de amigos. Eu levo uma vida muito simples, não tem uma coisa ou várias que eu posso dizer que influenciam no meu trampo. Não precisamos ter nota de rodapé em tudo”, resume.

 

No Sapatinho

“Eles querem que você desista, mas jamais se de por vencido!/ Rap nacional envolvidão até o pescoço,/ não fosse assim, aí de mim, só tava o osso!”

 

Criolo divulgou todas as faixas de Ainda É Tempo para download gratuito, exceto essa, que é exclusiva para o lançamento físico, em CD e vinil. “É preciso espalhar o seu som. Ninguém é obrigado a ouvir a sua música; ainda vai ter que pagar? O dinheiro é suado para a maioria das pessoas. Não é certo nem é errado, é só um novo processo de divulgação. Acho que tem mais um aspecto de troca: você mandando uma coisa para o mundo e também recebendo de volta. Claro que é muito legal ter um CD, com um encarte bonito – mostrar isso para as pessoas é muito louco. E o vinil então? Caramba, ter um vinil é um sonho! Então, tem mil jeitos de divulgar seu trabalho”, comenta o artista.

E completa: “cada um tem suas razões e seu jeito de se relacionar com o trabalho, com a arte, ou com ambos. É isso que move as pessoas.”

 

 Tô Pra Ver

“Desistir, nunca, não sou covarde,/ Queira ou não rap é uma realidade”

 

Para Criolo, tanto compor as músicas dez anos atrás quanto reelaborá-las agora foram processos prazerosos. “Eu tive a oportunidade de entrar no estúdio e isso é muito raro, ainda mais lá atrás. A gente se priva de muita coisa: seus amigos se reúnem para fazer alguma coisa e você faz a conta de, se você não for, quanto dinheiro você está economizando para gastar em horas de estúdio. Por exemplo, você pensa em ir na pizzaria do bairro, você acabou de ganhar seu dinheiro e esperou um mês por isso. Sua comida e sua bebida vão dar R$ 15; eu pensava ‘mas com R$ 15 eu consigo pagar quanto tempo de estúdio?. Uma hora? Então eu não vou’. Imagina conseguir chegar ao final do mês com R$ 30? Você economizou um real por dia e vai conseguir duas horas de estúdio. Era uma loucura, é muito dinheiro!”, relembra ele.

Na nova versão de ‘Tô Pra Ver’, além da parceria com Rael há a inserção de uma fala atual de Criolo, que resume bem a ideia do álbum inteiro: pouca coisa mudou nesses anos, mas ainda há esperança. “Eu tenho fé nessa nova geração, nesse povo maravilhoso, na nossa juventude toda. (…) Só o amor pode mudar; não vamos perder nossa fé jamais”, canta Criolo ao final dessa canção.

 

Breáco

“Lá em casa mamãe não desafina/ Se a pontuação for baixa o videokê já desliga/ É muita treta quem esnoba a mãezinha/ Pois quando falta a da conduça, é só ela que trinca/ Agrada a coroa, e deixa ela can’tá/ Buquê de flor pra demonstrar importância”

 

A nova versão de ‘Breáco’ é bem mais dançante que a original. Reinventada por Dreyck Cabrera, a faixa traz um pouco do tom mais animado característico de Convoque Seu Buda, disco anterior de Criolo.

Estilos musicais nunca limitaram o artista; desde pequeno, sempre ouviu de tudo um pouco. “Cresci em um barraco de lona de caminhão e papelão; você escuta o que acontece nos outros barracos e os outros escutam o que acontece no seu. E isso também vale para música; de repente eu começava a ouvir coisas, eu não sabia o que era aquela música, mas eu ouvia”, conta Criolo.

“Já na época de colégio você começa a receber as indicações dos amigos, você ouve a música que o coleguinha trouxe para a festa dos professores. Aí um pouco mais velho, já na época do fim do ginásio, a black music chegou ao meus ouvidos. E assim foi construindo. Na década de 1920 ou 1930 ninguém precisou mostrar um diploma de pesquisador para se provar músico”, arremata.

 

Até Me Emocionei

Do Hip-hop não existe rei/ E eu não fiz o rap, mas o rap foi que me fez”

 

O mundo pode passar ainda por problemas bem parecidos com os de 2006, mas uma coisa já começou a mudar: a relevância do rap no cenário musical nacional. “A cena do rap sempre foi forte, mas hoje ela tem um alcance a mais, navega em outros mares”, diz Criolo, que observa que o rap sempre teve seu público fiel, no entanto mais pessoas hoje tem acesso ao que é produzido, atraindo novos públicos.

Ainda sobre mudanças, Criolo conta que não saberia o que dizer se tivesse a oportunidade de conversar consigo mesmo, 10 anos atrás. “Na verdade eu já faço isso, toda hora; eu sou esse mesmo cara. Não mudou. O que eu poderia fazer era mandar um axé, uma energia, dividir histórias, contar causos, mas não poderia dar uma dica para o Criolo de 2006. Só ele poderia dizer o que ele tem para viver”, reflete o artista.

 

Demorô

“Meu coração tá limpo querendo fazer o bem”

 

“Eu quero mudar o mundo para o bem, toda a população brasileira quer isso também; por que não rolou ainda? Porque existe o ‘mundo melhor’ na visão de cada um também”, raciocina Criolo. A ideia principal não apenas dessa canção, mas de todo o álbum, é a não conformidade com a sociedade como ela está, mas algo que vai além da revolta: maior que isso é a vontade de mudar.

A própria canção ‘Demorô’ mudou bastante de sua versão original para a atual, mas a essência é a mesma. “O que eu procuro dividir com as pessoas desde que eu comecei a escrever é que tem um monte de coisa errada, sim, mas que a gente tem condições de mudar. Todo mundo junto, valorizando cada pessoa com a sua potencialidade, com o seu olhar, com as suas necessidades, com o seu jeito mais lindo de contribuir. O marceneiro é importante, assim como o arquiteto é importante e assim como o urbanista é importante. Um tem muito a aprender com o outro. Mas hoje nós vivemos em uma sociedade cheia de chancelas: o marceneiro talvez não possa nem entrar no mesmo ambiente onde está o arquiteto ou o urbanista. São burocracias mentais”, diz o artista.

 

Vasilhame

“Você quer brisa? Vai escutar poesia!/ Toda quarta-feira ainda tem Cooperifa”

 

Criolo já foi Criolo Doido e nasceu Kleber Cavalcante Gomes. É de São Paulo, do Grajaú, zona sul da cidade. A vida na periferia nunca foi desculpa para não encarar a luta, expressar sua arte ou se entregar à drogas ou ao crime. É sobre isso que a canção ‘Vasilhame’ fala.

Além da Cooperifa, que ele cita na letra, a Rinha de MCs é outro destaque cultural da região, da qual Criolo foi um dos fundadores. Começou como a organização de batalhas de improvisação entre MCs, para troca e aperfeiçoamento das habilidades de cada um. Hoje, além de ter se expandido pela cidade, o evento incorporou outras expressões artísticas relacionadas ao hip hop, como dança, graffiti e discotecagem.

 

Ainda Há Tempo

“As pessoas não são más/ Elas só estão perdidas/ Ainda há tempo”

 

A faixa-título é a que encerra o álbum e também a que resume a essência dele. “Falamos das faces cruéis que o ser humano consegue oferecer, de decepções, mas também fala de muita esperança, de fé, de acreditar que é possível. Isso é uma busca global, estamos tentando provar o que deveria ser óbvio: que o ser humano é capaz de fazer coisas boas para si e para o próximo. A maioria das pessoas quer o bem, mas existe um pequeno grupo que detém o poder e que, infelizmente, na cabeça desses caras, isso não faz sentido algum”, conta Criolo.

Para ele, todas as canções de Ainda É Tempo estão profundamente interligadas, criando um sentido comum. “Essas músicas falam bem sobre como é se deparar com a possibilidade de expressão, que é possível você se expressar com o mundo. Isso é brutal, sobretudo quando se leva em conta o ambiente que você cresce e todo mundo ao seu redor diz que nada é para você. Você se vê capaz”, diz. Fica o convite para ouvir o disco inteiro, afinal, se essas canções e essa mensagem ainda não chegaram até você, ainda é tempo.

 

Por Carolina Porne