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Entrevista

Viva, Cazuza!

Rogério Flausino e Wilson Sideral se unem para homenagear uma das maiores vozes da música brasileira. Em entrevista exclusiva, os irmãos contam como o projeto foi elaborado e o quanto Cazuza fez parte de suas vidas

Entrevista

Viva, Cazuza!

jenniffer.hoche • 08 de novembro de 2016 • 09h03

O quanto você acredita que Cazuza influenciou na maneira como você faz música?

Rogério Flausino: É muito legal pensar nisso, porque nos remete a quando começamos a tocar. Eu tinha 13 anos, o Sideral tinha 10, dois meninos do interior de Minas Gerais. Ele começou a aprender a tocar violão com aqueles livrinhos de cifras, sabe? Em três anos ele já era um dos melhores guitarristas da região. E nessa época o que era novidade em música chegava para a gente pelo Chacrinha; a gente parava na frente da televisão, via as bandas fazendo playback e achava o máximo! (risos) Quando rolou o Rock in Rio em 1985 e todas aquelas bandas foram para o palco, a gente pirou de vez. Cazuza ali no palco, ainda cantando com o Barão Vermelho, foi uma imagem muito forte. Logo depois ele saiu do Barão, o que foi um choque no começo, mas depois ele surge cantando Exagerado, Codinome Beija-Flor e choca a gente mais ainda, porque não era mais rock, mas ainda era muito forte, muito intenso. Ele queria ir muito além do rock’n’roll e ele conseguiu isso. Quando vem o Ideologia, o álbum de 1988, o negócio fica muito sério; o papo desse disco é genial. Nesse mesmo período a gente tinha uma banda chamada Contato Imediato, que durou até 1991, quando a gente se afastou para seguir com outros projetos, que depois seriam o Jota Quest e a carreira solo do Sideral. Vinte anos depois a gente retoma a parceria.

Wilson Sideral: Acredito que não apenas a gente, mas o Cazuza mudou toda uma geração, musicalmente e culturalmente, como um todo. A poesia dele, combinada com o seu lado contestador, o lado mais político, é muito marcante. Cazuza foi um grande corajoso, que não teve medo de dar a sua cara a tapa quando a sociedade queria massacrá-lo. Olhar para o legado do Cazuza é tomar um choque de realidade; parar e pensar ‘o que é que a gente está fazendo com a música brasileira?’.

 

De onde veio a ideia de fazer uma turnê cantando Cazuza?

RF: Eu me encontrei com a Lucinha (Araújo, mãe do Cazuza) um pouco antes dos 15 anos da morte do Cazuza, falei para ela o quanto eu gostava dele e ela me sugeriu que fizesse uma apresentação cantando Cazuza. Chamei o Sideral e fizemos. Na época minha mãe estava com câncer e a gente queria muito mostrar esse show para ela. Conseguimos uma data em outubro do ano passado, mas ela não aguentou viajar para ver o show. Aí então fomos todos para Minas Gerais, fizemos o show na praça da cidade no dia 15 de outubro e ela faleceu em novembro. Logo depois, fomos chamados para fazer um show em Goiânia, dentro do shopping Flamboyant, e foi muito louco. Não teve jeito: a vontade já tinha crescido em nós e começamos a organizar as agendas para começar uma turnê cantando Cazuza. Os shows não poderiam ser aos finais de semana, quando a agenda do Jota é lotada, então veio a ideia de fazermos as apresentações em teatros, em dias alternativos, para menos pessoas.

WS: Esse show tem uma carga emocional muito grande, de lembrar toda a nossa infância e adolescência ouvindo Cazuza e trazer essa energia para o palco. Cazuza foi um poeta de mão cheia, um cara que marcou muito a vida das pessoas não apenas com a sua música, mas com a sua história de vida. O momento em que ele revela para o Brasil inteiro que é portador de HIV e traz esse tabu para discussão ele vira um porta-voz da doença, chama a atenção para ela indo além de qualquer preconceito. Pegar toda essa bagagem e levar para o palco é coisa séria, mas eu me sinto confiante de estar fazendo isso com o Flausino ao meu lado, uma pessoa que eu conheço desde criança. Nossa intenção é passar um recado bonito, mostrar para as pessoas que talvez não tenham vivido aquela época tão intensamente o que era ser Cazuza. Está sendo muito gratificante e emocionante; tem hora que dá vontade de chorar, que a gente se arrepia todo (risos). É muito bonito. Fora que eu acredito que esse show veio para unir os irmãos, afinal o projeto começou na mesma época em que a minha mãe foi diagnosticada com câncer. Foram anos de luta em que ela ficou com a gente, apesar de os médicos terem dito que ela teria meses de vida. Isso com certeza foi o empurrãozinho que faltava para a gente parar e fazer um projeto juntos. Cara, o tempo não para, já dizia Cazuza. Vamos fazer as coisas agora, vamos ser felizes agora, antes que o tempo passe.

 

Qual canção de Cazuza foi trilha sonora da sua vida?

RF: Acho que Ideologia foi muito forte pra mim. As músicas da Contato Imediato eram todas sociais, políticas e é muito difícil você externar isso. O Cazuza era realmente um cara acima da média, ele escreveu uma música que quando você canta você a transforma em sua verdade. Eu também gosto muito de Pro Dia Nascer Feliz e O Tempo Não Para, também músicas com letras muito fortes.

WS: É bem difícil, porque cada canção pode representar um estado de espírito, uma hora do dia, um relacionamento… Mas talvez Ideologia englobe muitas coisas de uma vez só. Só que se você me fizer essa pergunta de novo daqui duas horas talvez a respostas mude! (risos) Ideologia é uma música que faz você refletir o seu papel como cidadão, como profissional, como pai.

 

Como foi a seleção do repertório para os shows?

RF: Essa história é boa. Quando a gente começou a pensar no repertório eu estava na estrada, sem nenhum dos discos do Cazuza por perto. Peguei o celular, abri as anotações e fui listando o que eu ia lembrando. Fiz uma lista de 42 músicas! (risos) Acho que não ia dar para colocar tudo isso no show… Aí fizemos uma seleção do que realmente não poderia faltar mesmo e chegamos a 18 canções.

 

E a elaboração do show em si?

WS: A gente começou a criar esse show entre janeiro e fevereiro de 2015. Aí quando a gente ia fazer pintava um disco novo do Jota, ou algum trabalho meu. Eu fiz a direção dos arranjos das músicas com a banda; a gente buscou o mais próximo possível dos originais, que era o que a gente ouvia. A seleção do repertório não foi tão difícil, pois a gente conhece as músicas; deu mais trabalho filtrar e chegar a um número aceitável de canções para um show. Tentamos trazer todos os momentos do Cazuza, desde o início do Barão até o flerte com a MPB nos discos solo. Além disso, temos algumas projeções que passam durante o show; eu ando meio apaixonado com esse negócio de edição de vídeo (risos). Eu edito os meus próprios videoclipes, faço algumas artes… Então eu criei um conteúdo que vai passar no telão ao longo do show, cada música tem um vídeo, que começa sincronizado com a música. Esses vídeos misturam shows do Cazuza, em gravações recuperadas, com vídeos até meus e do Flausino tocando quando éramos crianças! O resultado ficou muito bonito.

 

Tem algum momento em especial do show que vocês querem destacar?

RF: Em determinada hora do show sai todo mundo do palco e fica só eu e o Sideral; nessa hora a gente fica livre, porque eu sei cantar todas e o Sideral sabe tocar todas, então a cada show variam as músicas do repertório, pelo menos nesse momento. E isso é tão natural, afinal fizemos muito isso na vida; tocamos juntos em muito boteco.

 

Sideral, uma das canções do show é “Não Reclamo”, uma canção inédita criada por você. Como foi essa experiência criativa?

WS: No meu disco Lançado Ao Mar eu gravei uma música chamada “Amém, poeta”, que eu escrevi no dia em que Cazuza morreu; ela ficou guardada por anos até eu gravar. Depois, quando ela passou a fazer parte dos shows, virou o hit que todo mundo ficava esperando para ouvir (risos). Essa música é, na verdade, uma coleção de frases do Cazuza, aquelas que todo mundo sempre lembra quando pensa nele. Depois, em outro álbum meu (Dias Claros), eu gravei uma versão de Exagerado. Tudo isso para dizer que eu já tinha um contexto ao lidar com as letras do Cazuza. Musicar “Não Reclamo” foi algo bem natural.

 

Existe o projeto de transformar esse show em um álbum ou um DVD no futuro?

RF: Pode acontecer sim. Podemos um dia registrar o show e fazer um DVD, por que não? No entanto, eu prefiro deixar com que as coisas aconteçam naturalmente. Eu já sou ansioso por natureza, então melhor dar um passo de cada vez.

WS: A gente já conversou sobre isso, em talvez fazer um DVD, mas estamos deixando as coisas acontecerem. Não estamos preocupados com isso agora, isso vai acabar sendo uma consequência natural de um trabalho feito com muito amor.

 

Rogério, em outubro, o primeiro disco do Jota Quest completou 20 anos. O que mais mudou na sua forma de fazer música e o que permanece como essência?

RF: Dá para acreditar que “As Dores do Mundo” e “Encontrar Alguém” já têm 20 anos? (risos) Foi uma chegada retumbante, divertida, animal! Acho que o que permanece em nós do Jota Quest é essa vontade de acontecer, de agradar o público, de dar o nosso melhor.

 

Sideral, além desta turnê, quais são os seus próximos projetos?

WS: Dei uma congelada em alguns planos que eram pra já, mas estou com um disco pronto na cabeça, falta só entrar no estúdio! (risos) Tenho uma série de canções autorais prontas, inclusive esse mergulho na discografia do Cazuza tem me inspirado muito. Só que hoje, para um artista independente como eu, não é tão fácil parar e gravar um disco novo; cada show que eu faço, cada cachê que eu ganho, vai ser revertido depois em um novo trabalho. O ciclo é esse, e a vontade é de ter uma agenda mais cheia, para conseguir realizar mais sonhos.

Por Carolina Porne