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Les Miserábles: en-cantando gerações

Conversamos com a diretora e atores após espetáculo em São Paulo.

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Les Miserábles: en-cantando gerações

Patrícia Cardozo • 13 de abril de 2017 • 04h31

Você pode ouvir as pessoas cantando?

Cada vez mais peças de teatro musical tem tomado conta dos palcos brasileiros, trazendo os clássicos da Broadway em versões adaptadas que nada deixam a desejar às superproduções de outros países. Contudo, não se pode achar que isso surgiu da noite para o dia. O retorno de Les Misérables ao teatro Renault, em São Paulo, é um marco dessa história – há 16 anos, em abril de 2001, ele foi o primeiro musical montado no Brasil.

Para Rachel Ripani, diretora residente da nova versão de “Les Mis”, trazer de volta esse espetáculo é um símbolo. “O teatro musical brasileiro está mais profissional, está gerando emprego. Entre elenco e pessoas que não aparecem, mas que são fundamentais para que o espetáculo aconteça, somos mais de 200 pessoas trabalhando. O resultado é esse, um musical que nos enche de orgulho”, conta. A diretora, que tem mais de 27 anos de experiência e também dirigiu Wicked, sucesso de 2016, fala que cada nova montagem traz aprendizados, e assim o teatro evolui, pois os profissionais evoluem.

O mundo do teatro musical encanta com facilidade, pois une em si três grandes artes: música, dança e interpretação. E um ator que deseja seguir carreira nesse meio precisa se dedicar aos três, vencendo suas dificuldades em cada um deles. Assim também foi com a história do teatro musical no Brasil.

A principal casa do gênero no Brasil é o teatro Renault, em São Paulo. Fechado em 1969 por decorrência de um grande incêndio, reabriu em 2001 com Les Miserábles em cartaz.

“Lembro-me de estar em 2000 aqui nesse teatro fazendo audição para a primeira versão do Les Mis”, relembra Nando Phrado, que vive Javert na nova montagem do espetáculo. “Eu tive a sorte de começar nesse meio junto com o próprio teatro musical no Brasil. É impressionante ver a qualidade de todos os atores do elenco, algo que eu nunca vi na minha vida, e estar como um dos protagonistas ao lado de artistas tão maravilhosos é uma grande honra”.

Desde então, o prédio em estilo art decó já foi palco das mais diversas montagens, de Miss Saigon e O Fantasma da Ópera ao grandioso Rei Leão, que inclusive exportou talentos – Tiago Barbosa, que interpretou Simba na montagem, agora dá vida novamente ao personagem, só que agora na Espanha.

O amadurecimento do teatro musical brasileiro também tem atraído talentos internacionais para o nosso País. Daniel Diges, que interpreta Jean Valjean em Les Miserábles, também viveu o personagem na versão espanhola do musical. “O casting foi feito com brasileiros, mas também mexicanos, argentinos – enfim, todas as pessoas de língua latina. Eu fiz o teste por vídeo e me escolheram. Não está sendo uma adaptação fácil; é trabalhoso, mas é muito bonito ver o resultado. Certamente essa experiência me fará crescer não apenas como ator ou profissional, mas como pessoa”, diz Daniel.

Se considerarmos apenas São Paulo e Rio de Janeiro, temos cerca de 10 musicais em cartaz, para todos os gostos. Além do clássico Les Miserábles, temos peças específicas para o público infantil, bem como montagens como Rent ou Rocky Horror Show, mais alternativas. Até novela já está virando musical: Vamp, sucesso da TV na década de 1990, também ganha sua versão em teatro musical, em cartaz até junho no Rio de Janeiro.

Filipe Bragança

Miserável outra vez

Mesmo depois de tantos anos, tem gente que está retornando aos palcos nessa versão de Les Miserábles. É o caso de Laura Lobo, que interpreta Éponine, uma das principais personagens da peça. “É muito louco – não tem outra expressão para definir esse retorno! (risos) Vêm umas memórias de repente quando tocam aqueles primeiros acordes da peça… Eu vejo as menininhas ensaiando e fazendo as Cosettinhas e é tão fofo! Só tenho a agradecer por poder viver isso de novo”, conta a atriz.

De 2001 para cá, Laura atuou em outras grandes produções, como Cats e A Família Adams, acompanhando de perto essa evolução do teatro musical em terras brasileiras. “Acho maravilhoso que o teatro musical tenha se profissionalizado cada vez mais. Particularmente, sinto que a música alimenta minha atuação, então eu acho bonito ver as pessoas se preparando desde cedo para cantar, dançar e atuar, tudo ao mesmo tempo. Para mim o teatro musical é uma das formas mais completas de arte”, reflete.

Sobre sua preparação para esse “revival”, Laura Lobo diz que suas referências vieram fundamentalmente da obra de Victor Hugo. “Evitei buscar referências no filme ou na série, então minha base veio do livro. A direção também me ajudou a descobrir diferentes camadas da personagem e conseguir trazer essa tristeza feliz que ela sente. Foi um trabalho bem interno mesmo”.

Hablando acerca de teatro

Ele pode não ter um nome muito conhecido por aqui, mas Daniel Diges é um fenômeno na Espanha. Tem seu trabalho como cantor, com diversos discos lançados, bem como já atuou na televisão e no teatro. Entrar para o mundo dos musicais foi consequência do talento nas duas artes – ele foi premiado em 2009 e 2010 como Melhor Ator de Musicais no Prêmio Nacional do Teatro espanhol.

Agora, em terras “brasileñas” e lutando para perder o sotaque, Daniel dá vida a Jean Valjean, o herói de Los Miserábles. “Foram muitas horas de estudo e trabalho. Acordava por volta das oito da manhã e ficava estudando o roteiro até de madrugada. O sotaque também estou trabalhando constantemente para perder, uma vez que em português as frases são mais abertas, a pronúncia é muito diferente. Tudo isso em sete semanas!”, conta o ator.

Enquanto a adaptação para o português toma a maior parte de seu trabalho, sua relação com o personagem é de total proximidade, uma vez que já o interpretou antes: Daniel conta que já leu o livro de Victor Hugo duas vezes e que hoje já sabe como Jean Valjean pensa em cada momento da peça, e vivê-lo novamente é um presente. “É maravilhoso estar vivendo Les Miserábles novamente, uma vez que, para mim, a principal mensagem que o musical passa é ‘viva com amor’. É o que tenho feito”, conclui.

Revolução atual

Les Miserábles se passa na França do início do século XIX e acompanha as histórias entrelaçadas de personagens que lutam não apenas pela revolução, mas por uma redenção pessoal. Baseada no romance escrito por Victor Hugo em 1862, é interessante ver como alguns temas da peça permanecem atuais. Essa é a opinião de Nando Pradho, que vive Javert na peça. “A gente percebe que, mesmo se tratando da Revolução Francesa, esse é um espetáculo bastante contemporâneo; o que acontece quando os escravos chegam é o que se vê hoje com as rebeliões nas prisões. Não precisamos ir muito para trás para buscar referências – infelizmente, o espetáculo permanece atual pois o mundo não deixa de ter guerras, injustiça, violência, miséria…”, pondera o ator.

Para ele, o fato da peça não possuir um protagonista central também permite que o público se identifique mais. “É um musical com nove protagonistas: o carrasco, o herói, o triângulo amoroso, a mãe que perdeu sua filha, os donos do bar, o líder da revolução. São várias histórias dentro de uma história, e todas são igualmente importantes”.

Sobre Javert, o antagonista da peça, Nando conta a personalidade cegamente metódica não deixa de se refletir nos dias de hoje. “Vivemos tempos em que há cada vez menos espaço para discussão: ou você é isso, ou aquilo. Essa polarização define bem o pensamento do Javert, que é extremamente racional e, quando percebe que passou uma vida inteira atrás de um ideal que não era verdadeiro, ele se vê sem saída”, considera ele.

 

Bilheteria Fnac: Les Miserábles

Em cartaz até 30/07 no Teatro Renault

Av. Brigadeiro Luis Antônio, 411 – São Paulo – SP

Ingressos entre R$ 50 e R$ 310, à venda na Bilheteria Fnac